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Mentalidade Imperturbável

Aprenda a vencer os dias difíceis

Por que a maioria das pessoas prefere não ter do que perder, o que o cortisol faz com a sua decisão na crise e o método que eu uso para atravessar o dia ruim. Major Ronald Cadar, do BOPE.

Dez horas da noite, o morador me liga. A cisterna da minha obra rachou, tem desabastecimento na região, tem gente sem água e o problema fica todo na minha cabeça, porque ninguém pensa comigo. E o que mais me incomoda não é o prejuízo. É que eu não estou prestando um bom trabalho. Isso me incomoda mais do que o problema, mais do que o prejuízo, mais do que tudo.

Aí eu faço a única coisa que sobra: aluguei uma cisterna, contratei caminhão pipa, paguei um técnico para olhar enquanto eu não posso ir lá, porque a obra é longe. Eu faço o que me cabe. Por mais que aquilo me aflija, eu não arrego.

Repara na sequência, porque ela é a tese deste texto. O dia ruim não me deu escolha nenhuma sobre o que aconteceu. Ele me deu escolha sobre o que eu ia fazer nas horas seguintes. E é aí que quase todo mundo perde: não no fracasso, mas na hora de decidir se encara. A maioria prefere não ter do que perder. Prefere não tentar, não se relacionar, não se candidatar, não se expor, porque não ter está no controle dela e perder não está.

O que a crise faz com o seu corpo antes de você decidir qualquer coisa

Toda vez que você está diante de uma crise, o cérebro entra em estado de alerta. Imagina você lá na tribo primitiva e aparece um tigre. O teu corpo talvez não tenha energia suficiente para fugir, então ele sobe o cortisol, aciona a reserva e consome em segundos aquilo que você demoraria doze horas para consumir. Você fica mais forte, mais rápido, insensível à dor.

Só que você perde uma porrada de coisa junto. Perde raciocínio lógico e perde coordenação motora fina. Para o cara primitivo isso não fazia diferença nenhuma: era porrada seca, era descer o machado e acabou. Funcionava.

3 milhõesde anos de espécie
8.000anos como sociedade
12 horasde energia queimadas em segundos na crise

O problema é que hoje não tem mais tigre. O teu problema é o teu chefe, é um projeto que você não consegue realizar, é uma reprovação num concurso que você tentou muito, é um relacionamento que acaba. E tudo isso sobe o teu cortisol do mesmo jeito.

Eu uso um jeito didático de explicar: o hipotálamo é como se tivesse uma antena atrás. Toda vez que bate um problema nele e você não dá solução, essa antena balança. Quanto mais forte ela balança, mais o cortisol sobe, e aí começa a aflição, a angústia, o incômodo que existe para te obrigar a agir. Tudo aquilo que não tem solução aumenta o teu cortisol.

Agora soma. Chefe, relacionamento ruim, frustração dos projetos que você não realiza. Nada disso tem fim. Então o teu cortisol já começa alto todo dia. E, com ele alto, você fica menos inteligente, a imunidade cai, o raciocínio lógico e a coordenação fina vão embora. Pensar em solução com cortisol alto não funciona. Você fica burro na hora em que mais precisava não ficar.

De onde vem a crença limitante: o cérebro prefere não ter do que perder

Aqui nasce a coisa toda. Para não sentir aquela aflição que ele não consegue resolver, o teu cérebro decide não ter, em vez de correr o risco de perder.

Tem gente que prefere não se relacionar porque tem medo de perder. Repara na lógica: não ter está no teu controle, se relacionar pode dar perda e isso não está no teu controle. As pessoas têm medo do que não está no controle. Por isso tem uma porrada de medroso por aí.

Eu vivi o outro lado disso. Fiz prova para fuzileiro, tentei aprendiz de marinheiro três vezes, fazia prova de oficial da polícia todo ano, e acabei passando no mesmo ano em que passei para professor da polícia. Eu não tenho medo de errar. Isso ser ruim está na sua imaginação: para mim custou só o preço da inscrição, não teve mais gasto nenhum. Eu já estava estudando para a prova que eu queria, então dava para tentar. Vai que.

Eu já aconselhei conhecido que passou bem na prova de oficial a fazer a de delegado. Cheguei a oferecer pagar a inscrição. A resposta foi "não estudei para esse concurso, não vou tentar". Isso não é estratégia, é medo de fracassar.

Existe um livro conhecido sobre mindset que separa dois tipos: o fixo e o de crescimento. O fixo desenvolve crenças limitantes para justificar as próprias fraquezas e não precisar encarar nenhuma delas. Começa a dizer que fulano tem o dom, que fulano nasceu para isso, que fulano é o escolhido. O de crescimento acredita que tudo está nele e que ele precisa lutar para crescer. É exatamente a diferença entre quem transforma a crise em treino e quem transforma a crise em desculpa.

O cara medíocre prefere esse inferno conhecido do que buscar um paraíso desconhecido.

"Eu trabalho com risco calculado"

Essa é a objeção mais bem vestida que eu recebo, e vale demolir ela com cuidado, porque ela engana até quem fala.

Um garoto chegou para mim dizendo que gostava de calcular os riscos, que tinha pensamento de crescer, que acreditava ser capaz, mas que gostava de entender bem as coisas antes. Frase de coach. Risco calculado tem risco, filho. Se você pegou isso de mim, você não soube interpretar.

Uma coisa é estudar o seu desafio para planejar, e isso é inteligente, você precisa disso. Outra coisa é não se desafiar porque você ainda não estudou tudo. Existem coisas que não têm como controlar. Você é policial: se alguém te prometeu que você não vai tomar tiro e não vai morrer, mentiu. Quem vai para confronto tem muita chance de ser baleado, tem muita chance de enterrar amigo. Técnica te eleva bastante e faz um diferencial absurdo, mas não é 100%.

Quem exige certeza do resultado não está se desafiando. Isso é medo disfarçado. O combatente vai ter que ir mesmo com medo, mesmo inseguro, usando o que está no controle dele. Se eu tomar esse poste, o tiro não pega. Se o tiro parou porque ele trocou carregador, deu tempo, eu corro e ganho espaço.

Teve uma favela em que os caras eram fortes no tiro e havia uma ponte que era gargalo: todo mundo tinha que passar por ali, e eles esperavam. Naquele dia passou um ônibus, e eles entopem a rua de quebra-mola justamente para ninguém passar rápido. Eu saí correndo atrás do ônibus. O ônibus virou meu escudo. O Capitão Eduardo veio atrás de mim, ficamos eu e ele, e toda vez que o ônibus parava para o quebra-mola a gente chegava mais perto. Passamos a ponte inteira sem ninguém ver a gente.

Não teve controle nenhum ali. Teve uso do que existia.

A cura: quatro degraus para atravessar o dia ruim

Marco Aurélio escreveu que foi liberto de todas as suas preocupações, pois tudo era imaginação dele. A maioria dos seus problemas está mais na sua imaginação do que na realidade. E o pior é que problema imaginário não tem solução: se eu invento um problema que não existe, eu não consigo criar uma solução que exista. Ele só se retroalimenta.

Problema real é outra coisa, e problema real não dá para negar. Uma arma na sua cara. Faltou comida na geladeira. Não tem dinheiro para o aluguel. Seu filho está doente. Problema real é inegociável, você para tudo.

Degrau 1Separe o real do imaginário. Se você não consegue nomear a perda concreta, o problema está na sua cabeça e não na sua vida.
Degrau 2Dicotomia do controle. Você só controla duas coisas: a sua reação e as suas intenções. E ainda assim com dificuldade.
Degrau 3Memento mori. Diante do fim, o que não é importante cai sozinho: vaidade, briga boba, arrogância, egoísmo.
Degrau 4Execute o que te cabe. Cisterna alugada, caminhão pipa, técnico contratado. A ação possível derruba o cortisol que a reclamação só alimenta.

Os quatro degraus não tiram a dor do dia difícil. Eles tiram de cima de você o peso daquilo que nunca esteve na sua mão.

No filme em que o Brad Pitt vai parar no Tibete, ele fica revoltado porque um general entregou todo o paiol de armamento aos invasores. Ele cobra do monge que façam alguma coisa, e o monge pergunta se há algo a ser feito. Ele para, pensa, e não há. Se eu sei que vão invadir, se eu sei que não tenho defesa, eu tenho duas escolhas: ou eu sofro daqui até lá e acontece do mesmo jeito, ou eu fico tranquilo daqui até lá e sofro na hora que for para sofrer.

E o memento mori não é mórbido, é prático. Marco Aurélio pagava um homem para andar ao lado dele repetindo que ele era só um mortal, para não se perder nas adulações quando voltava a Roma. Se você acorda entendendo que o dia é uma missão e que no fim dele você morre, você faz tudo da melhor forma. Se você fosse morrer hoje fazendo o que está fazendo, você teria orgulho de si? Se não, está fazendo alguma coisa errada.

Coragem não é dom, e não precisa durar o dia inteiro

Eu era fraco. Sempre fui medroso, tive que trabalhar minha coragem. E eu era burro, muito limitado, sou neurodivergente, tenho muita dificuldade de aprendizado. Não nasci com dom nenhum. Na minha primeira operação eu simplesmente escolhi o Ruivo e copiei tudo o que ele fazia. Ele correu, eu corri. Ele parou, eu parei. Eu estava com o olho assustado e não entendia nada, mas eu não parei. Ele nunca soube que eu estava copiando ele.

E tem uma coisa que alivia: você não precisa ser 100% corajoso na sua vida. No geral, você precisa de dez a vinte segundos de coragem. O resto é sobreviver depois que a coragem acontece. Diversas vezes eu me meti em problema porque dei o primeiro passo, e depois não tinha como voltar. Queimei o barco. Vários atos meus de coragem começaram com um passo e depois viraram uma loucura para sobreviver.

Tempo ruim passa, pessoas fortes ficam.

Por isso coragem é escolha, não é instinto natural. Ninguém nasce com isso. Você pode fraquejar num dia. No próximo, você muda. É escolha diária e esforço contínuo, e quem diz que já nasceu para isso está mentindo e se enganando.

Por que isso decide quem fica na sua equipe

Na prosperidade todo mundo é justo, educado, honesto e leal, porque ninguém está sendo testado. A gente só sabe quem é quem no dia do teste. Na hora em que a água sobe, o raio bate e a porrada come, quem sobra?

É isso que faz alguém ser Operações Especiais, e não o curso. Se você fizer todos os módulos, pagar para saltar, pagar para mergulhar, pagar para treinar montanha e natação, você vai aprender todas as habilidades que um caveira sabe e mesmo assim não vai ser caveira. Porque o que torna alguém Operações Especiais é sobreviver ao terror no dia em que faltou tudo: faltou comida, faltou amigo, faltou lealdade, faltou justiça. Quem é você que sobrou? Sobrou um cara digno, ou sobrou um chorão que pede para ir embora?

Eu fui aluno e fui instrutor do COESP, onde se forma de 10 a 15% de quem entra. E eu nunca vi um cara que pediu para sair e que não tenha se arrependido. Ele depois vê gente que era mais fraca do que ele no processo seletivo bancando até o fim. A diferença não é músculo. Músculo não é força. É a mente.

O medroso morre todo dia, o corajoso só morre uma vez.

Numa turma, quem fala que já é caveira quase nunca é. Eu não falava, eu já era calejado de ter sido soldado. O Jason nunca foi de falar, e andava na direção do treinamento. Hoje é o tipo de gente de quem você sabe que não vai ficar na mão. O Procópio, hoje capitão, é maluco, briguento, tem todos os defeitos, mas não dobra e é leal no céu e no inferno. Se você está com ele do lado na patrulha, você sabe.

O que fazer com isso amanhã cedo

Concreto, na ordem:

  • Escreva o problema que está te consumindo e pergunte qual é a perda real. Se não existe perda nomeável, é imaginação, e imaginação não tem solução, só retroalimentação.
  • Separe a lista em duas colunas: o que eu controlo e o que eu não controlo. Só a reação e a intenção são suas. O resto sai da lista.
  • Execute hoje a ação possível, mesmo que ela não resolva. Foi o que eu fiz com a cisterna: não resolveu o desabastecimento, resolveu o que me cabia.
  • Feche as portas abertas antes de dormir. Seu cérebro retroalimenta tudo aquilo a que você não dá fim. É o mesmo motivo pelo qual um trecho de música que você não ouviu inteiro fica rodando na sua cabeça: ouvir a música toda tende a desatar. Faça o ritual do sono que você faz para o seu filho e não faz para você.
  • Ponha um julgador no seu futuro. Alguém que vai olhar para o que você fez hoje. No meu caso é o meu filho.

E não confunda chorar com parar. Chorar não é problema. Problema é parar de andar estando no inferno. Chorou, continua andando.

A ponte

Se você lidera equipe, essa é a diferença que decide o resultado da sua operação num trimestre ruim. Não é o organograma, não é a meta na parede: é quem, dentro da sua equipe, prefere não ter do que perder, e quem consegue executar o que lhe cabe com o cortisol lá em cima. Isso não se resolve com discurso motivacional, porque discurso motivacional só funciona no dia fácil, e o dia fácil não testa ninguém.

Eu trabalho exatamente essa parte com empresas: como a sua liderança decide sob crise, como separar o problema real do imaginário no meio da pressão, e como treinar a coragem operacional que não depende de dom nem de perfil.

Solicite uma proposta de palestra.

As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.