Mentalidade Imperturbável
A prisão invisível de quem tem medo de dar opinião
Major Ronald Cadar explica por que o profissional que não fala em reunião não é tímido de nascença, e qual é o treino que tira ele da omissão.
Eu era o terceiro da fila na porta do avião. Saltamos com 5.000 pés, eu acho. O 01 pulou, o 05 pulou, e na minha vez o instrutor gritou que o paraquedas do fulano não tinha aberto. Bora aí, aluno. Vem, filho.
Parei na porta. De joelho, segurando o batente, o vazio do mundo de um lado. E a única pergunta que eu fiz foi: o que eu tenho que fazer aqui? Eu já ensaiei. Passa pro lado e abre. Penso depois.
Pulei. E o meu deu merda: na hora que eu puxei, o paraquedas charutou, ficou todo embolado. Tive que segurar as cordas e dar chute pro lado oposto para desenrolar, olhando o altímetro cair. Fechei o badoc no final, caí que nem uma pedra, quase arrebentei o tornozelo. Sobrevivi.
Agora repara: no seu trabalho tem uma reunião onde o chefe pergunta quem tem a solução para o projeto que está emperrado. E você não fala. Você sabe a resposta, e você não fala. Depois você conta a solução para um amigo teu, ele leva, ele ascende, e você vira o subgrupo.
A tese deste texto é essa, filho: essa sua timidez não é um jeito de ser. É uma escolha de omissão, feita por medo de uma coisa que não existe, e ela custa exatamente o mesmo que a porta do avião custaria se eu tivesse voltado para dentro.
A prisão invisível é a pessoa que escolheu agradar
Essa aula começou num relato do Direct. Recebo mais de um depoimento de gente que se omite em fazer o que acha certo, que se omite em tomar frente de projetos, porque tem medo de crítica, medo do que vão falar, medo da opinião alheia.
A pessoa que escolheu amar mais agradar os outros do que amar a si mesmo trocou a identidade para fazer média. Nunca descobriu quem é. Não consegue falar em público, não consegue se posicionar, não consegue contrariar. Perde oportunidade de emprego, perde relação social, perde a possibilidade de ser ela mesma.
Andar em bando é importante, isso eu não nego. A sociedade superou as ameaças e os desafios, científicos, sociais e de sobrevivência, porque se reuniu e andou em bando. Existe um gatilho que nos impele a ter senso de identidade dentro do grupo. Mas isso não pode custar anular a sua individualidade, porque é a individualidade que constrói a personalidade e te projeta na direção do seu propósito.
Sem isso, o cara vira o que eu chamo de foguete que não decolou. Ele tem potencial de ser presidente do Brasil, mas não vai ser nem presidente do Grêmio. O foguete podia chegar até Marte e explodiu na baia.
"Ela ficou presa muito longe do que ela poderia ser."
Tudo aqui é sobre medo, e medo todos teremos
Na verdade, filho, tudo aqui é sobre medo. Medo de crítica, medo do que vão achar de você, medo de desagradar. Diante do medo, o medo te dominou e você escolheu a covardia.
Porque medo é sentimento básico, todo mundo tem. O corajoso, mesmo com medo, vai. O medroso se acovarda, vira, racionaliza, cria pensamentos justificativa. Cria a saída honrosa, mas no final é covardia.
"A diferença do corajoso pro covarde é o que cada um faz diante do medo."
E tem uma matemática por trás disso. Quem faz meus cursos sabe que a tomada de decisão é um triângulo: de um lado as suas crenças e princípios, de outro o medo ou risco, e no terceiro a oportunidade. Surgiu a oportunidade de você se posicionar, as suas crenças são favoráveis, mas você põe o medo tão alto que trava. Você devia ter crenças maiores, que seria identidade, para superar esse medo. Você não tem. Aí a matemática do perde e ganha dá medo, e a sua vida passa a ser regida por ele.
Por que o medo de opinar não tem solução: ele não tem lógica
O medo de ser julgado ativa a sua amídala, que é o centro do medo no cérebro. Pensa nela como uma antena: quando surge algum nível de ameaça, ela começa a vibrar, e quanto maior é o problema e menos solução ele tem, mais ela aumenta.
O medo da rejeição social ativa a mesma área do cérebro da dor. Por isso a dor de inveja é uma dor física, a dor de coração partido é uma dor física. O medo antecipa a crise, e ele tem a capacidade de te cobrar juros com um cheque pré-datado: ele te entrega hoje a dor de uma coisa que ainda não aconteceu. Aí a amídala ativa luta, fuga ou congelamento, e você trava.
Só que "o que as pessoas vão falar de mim" é um medo ilógico. E aqui está o mecanismo que a maioria não vê: quando você cria um medo que não tem lógica, você não consegue achar uma solução lógica. Não tem cálculo possível. Medo com lógica se calcula e acaba.
Compara com um salto de elástico. Quais são os medos ali? Soltar e não segurar? Está usando um reforço que aguenta o peso de um elefante, e eu estou mais leve que o elefante. A corda é curta demais? Já pularam 20 pessoas e nenhuma tocou no chão. Testei os equipamentos, estão OK. Então não tem lógica eu não pular, é só medo.
"Calculou o risco, acabou o medo."
Agora faz a mesma conta com a reunião. Opinião não muda o fato. O fato é o que você tem que fazer. Alguém falar que você é ruim, que você é fraco, não muda o que precisa ser feito ali. Quando um cara me disse, em setembro, que seguindo daquele jeito eu nunca ia sentar na mesa dos grandes, eu tinha 15.000 seguidores no YouTube. Em maio eu estava com 110.000. Vamos ver.
Tímido não é introvertido, e essa confusão é a maior desculpa do corporativo
Existem dois tipos de comportamento, extrovertido e introvertido. São características de onde você recarrega a bateria: o extrovertido em público, o introvertido sozinho.
Eu sou introvertido e não sou tímido. Se deixar, eu fico o dia inteiro no sofá mexendo no celular. Fico o dia inteiro sem falar com ninguém e não me sinto mal, me faz bem. Minha esposa às vezes ouve das pessoas que o marido dela é meio estranho, que fica quieto. E ela acha graça, porque as mesmas pessoas, quando param para conversar comigo, ficam ali rindo e batendo papo. Eu converso, eu vivo o momento, eu dou atenção. Mas se deixar eu sou quieto.
"Timidez é uma escolha de omissão."
Vocês, muitas vezes para não falar que são tímidos, chegam para mim e dizem que são introvertidos. Não é. Introversão é uma maneira de reservar energia. Timidez é medo ou falta de habilidade, e depois disso você vira um bloqueado social e começa a racionalizar desculpas virtuosas. O discurso de Miss Universo: as pessoas são idiotas, são animais com pelo, são irracionais. Você não quer admitir que falhou por medo e que agora não tem a habilidade.
E aqui mora o duplo custo que quase ninguém calcula. Você bloqueou lá atrás, na criança que foi punida quando errou e julgada quando falou e aprendeu a se omitir para sobreviver. Só que enquanto você se omitia, você também não treinava. Agora não é mais só medo, filho, agora também é falta de habilidade.
A objeção honesta: e quem realmente não tem jeito para falar?
Perfeccionismo às vezes é um disfarce do medo, medo de ser criticado. Eu ouço isso o tempo todo: podia ter um editor de vídeo, podia ter alugado um estúdio, podia ser uma coisa mais profissional, podia estar de terno aqui. Podia, podia, podia. Eu tenho o que eu tenho, e o fato do que eu preciso fazer não muda com a opinião dos outros.
O meu primeiro vídeo em que eu apareço falando é um pedaço do curso de criminologia. Você vai ver toda a precariedade: microfone ruim, ambiente mal iluminado, eu falando ainda com alguma dificuldade. E eu não mudo aquele curso. O conteúdo é muito bom, você não acha aquilo em outro lugar, e ele me lembra que foi assim que eu comecei. Eu não quero apagar o passado. Eu não quero que vocês cheguem aqui e vejam tudo bonito, senão vocês nunca vão entender o que é construção.
Eu também demorei para começar a aparecer, porque não me sentia confiante em falar, achava melhor escrever. A Ana Paula, uma amiga minha, disse que eu tinha que aparecer mais. Comecei pegando corte do YouTube, fui sentindo, fui tomando coragem, fui pegando habilidade. Hoje eu falo com mais tranquilidade. Só ver a evolução dos vídeos, do primeiro até agora.
Eu dou palestra boa, modéstia à parte, porque eu dou aula para turma presencial desde 2012, quando comecei a virar instrutor de tiro. Eu palestro para as equipes que eu comando desde sempre. Isso me ensinou a ler o feedback de professor: eu olho para a pessoa e já percebo se ela está atenta. Numa palestra num palco eu virei para o sócio e pedi para descer, fui para o meio da galera, e quando as pessoas se torcem na cadeira para olhar para você, eu sei que estou conectando. Duas horas de palestra, todo mundo conectado. Mas como é que faz isso? Treinando.
O treino: comece pela senhora na fila do mercado, não pelo palco
Comunicação é treino, filho. Ela é treinável, e quanto mais você treina, melhor você se comunica. Mas ninguém começa fazendo palestra.
Confiança se constrói. Cada degrau é habilidade, e habilidade é o que sobra depois que a lógica derruba o medo.
Uma vez um cara me perguntou qual era a minha opinião. Eu dei, e ele ficou 40 minutos tentando me convencer da opinião dele. Eu só dei porque ele pediu. Eu já passei da fase de querer estar certo.
E não se leve tão a sério. Se o cara te xingasse em japonês, você nunca ia saber que ele te xingou. Se ele te critica por uma coisa que não faz sentido, não tem por que se importar. O Marco Aurélio, eu acho que é ele, diz que se alguém o critica sobre algo que ele precisa melhorar, ele melhora; se critica por algo que não faz sentido, ele ignora.
O que isso custa na sua empresa
Alfred Adler, o psicólogo, diz que a grande liberdade é você estar disposto a desagradar as pessoas. Porque nem todo mundo vai ficar feliz quando você cantar.
No time, quem escolheu agradar vira o camisa cinco da seleção. Todo mundo lembra do Romário, do Bebeto, do Ronaldo, até do goleiro. Do camisa cinco ninguém sabe quem é. E o pior: as pessoas vão te abandonar, e não é por maldade. É que ninguém te pediu para ser essa pessoa que fica agradando todo mundo. Você nunca foi você de verdade, então ninguém te conhece o suficiente para te considerar de verdade.
"As pessoas vão te respeitar muito mais pelo que você é do que pelo que você finge ser."
As grandes conquistas envolvem desagradar, contrariar interesses, desafiar. Quando você escolhe fazer a vontade dos outros em vez da sua, você está se afastando do seu potencial e traindo você mesmo, que é a pior traição que tem.
Se a sua equipe tem gente boa que não fala
Um artigo mostra o mecanismo, mas ele não coloca a sua equipe na roda para treinar.
Se você olha para uma sala cheia de gente qualificada e a reunião termina com três pessoas falando e o resto calado, o seu problema não é competência técnica. É medo ilógico virando falta de habilidade, e isso não se resolve com curso de oratória, se resolve tirando o medo da conta e colocando treino no lugar. É esse recorte que eu levo para dentro de empresa: como o medo trava a decisão, como se calcula risco, e como se constrói a habilidade de se posicionar sem virar o cara grosseiro da equipe.
Solicite uma proposta de palestra e me diga em uma linha onde a sua equipe trava. Eu respondo com o formato e o escopo que fazem sentido para ela.
Só é livre quem está disposto a desagradar, filho. Ame a si mesmo antes de amar o próximo.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.