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Mentalidade Imperturbável

Curso de formação: o que realmente derruba o recruta

Quase ninguém perde o curso por não conseguir fazer as barras. Perde por levar tudo a sério demais e por negociar o que era inegociável. Major Ronald Cadar, do BOPE, explica o mecanismo.

São seis horas da manhã, estou aproveitando minha insônia e vou responder de uma vez uma coisa que vocês me demandam muito: o que acontece dentro de um curso de formação e o que vocês têm que levar a sério ali.

Começo pela parte que ninguém quer ouvir. Vocês chegam preocupados com o número de barras, com correr melhor que todo mundo, com parecer o Rambo. E aí se perdem numa coisa de relacionamento com o pelotão. As coisas que derrubam recruta não têm nada a ver com você treinar muito antes.

Eu já passei por muito processo. Formação de soldado fuzileiro em 2005. Formação de oficial, três anos de academia, de 2008 a 2010. Curso de tiro, proteção de autoridade, curso de sniper, COESP, curso do BOPE, além de estágios menores. Por já ter passado por tantos, as preocupações de vocês ficam até bobas. E eu digo com tranquilidade: vai dar certo. Só tem algumas coisas que você precisa entender para não se perder no caminho.

Não é um curso, é um rito de passagem

Primeira coisa que você tem que entender é a transformação em que você vai entrar. Rito de passagem é um rito de mudança dentro da tribo. É quando você sai de menino e vira homem. Nos espartanos existia o período em que se pegava um garoto, jogava na selva, e ele tinha que voltar depois de tanto tempo, sobrevivendo com aquilo que aprendeu no processo.

Ele muda as pessoas porque causa imprint. Imprint é impressão psicológica. Foi percebido em gansos: a primeira imagem que o filhote vê ao nascer é a que ele segue como mãe, e um pesquisador fez esse teste, e os gansos seguiram o pesquisador o período todo, porque ele foi o primeiro que eles viram.

Você tem o seu mapa de tomada de decisão. Ele vem de crença, medo, risco e oportunidade. Quando acontece o imprint, você vai na crença do cara e reconfigura. E isso acontece pela quantidade de estímulos e adversidades do processo. Quanto mais tenso, quanto mais pressão tiver um curso de formação, mais transformação ele tem de ter, porque muda diversos receptores da pessoa: de ambiente, de convívio, de estímulo, de pressão, de relacionamento.

Por isso, toda vez que alguém burla algum processo de formação, ele é mal visto por quem sabe que ele burlou. O cara que passa o processo todo fugindo dos treinos, arrumando dispensa, arrumando macetes burocráticos para não participar. Você começa a ser considerado igual dentro da sua tribo quando você banca sua etapa de rito de passagem.

Escreva seus valores inegociáveis antes de entrar

Se o processo tem poder de alterar suas crenças, você entra nele com uma armadura ou entra desprotegido. É a coisa que eu mais respondo na caixinha: todo mundo deve eleger, antes de entrar num rito de passagem, os valores que não está disposto a negociar.

Eu te aconselho, filho. Antes de entrar num curso de formação, tenha humildade de escrever tudo aquilo que você quer se tornar e tudo aquilo que você desprezaria se tornar. Porque eu vejo uma porrada de cara antes de entrar criticando quem está dentro, e quando entra vira um igual daquilo que ele criticou. Por quê? Porque negociou o que era inegociável.

Regras da lista:

  • Escreva a sua, não a minha. Cada um tem sua formação. Não adianta eu chegar e falar quais são os seus valores.
  • Simples e curta. Cinco, seis no máximo. Coisas que você quer ser e coisas que você não quer se tornar.
  • Valor de verdade, não birra. "Não tolero que falem da minha mãe" não é valor inegociável. Trazer recursos para casa, me especializar, não ceder a vícios e tentações, não trocar minha honestidade por bala, ser leal: isso é.
  • Revisite sempre que tiver dúvida. E você vai ter.

Eu passei por diversos processos e não me alterei por causa deles. Dizem que todo fuzileiro é arrogante, eu não fui. Dizem que todo caveira é isso, eu não sou. Porque eu não negocio certos valores meus. As armaduras são os valores que você não negocia. Organiza bem eles.

Pague sua etapa sem reclamar

Terceira coisa: você está indo para um curso de formação, cumpra o que te mandam. Não fica reclamando, não fica questionando. É flexão, então paga flexão. É para ficar acordado a madrugada toda, fica a madrugada toda. Não seja dessas almas que reclamam de tudo, achando que aquilo não serve para nada. Você não sabe. Você não participou do processo.

Eu estudo neurociência e digo com certeza: o certo é o curso de formação ser altamente estressante. E eu tive essa certeza quando fui trabalhar nas manifestações de 2012, na força de choque. Eu ficava lá na frente aturando moleque que nunca trabalhou me chamando de vagabundo. Eu lembro de ver um garoto de dezesseis, dezessete anos virar para um subtenente meu, negro, morador da baixada, com quatro filhos e quase trinta anos de carreira, e xingar ele. Eu vi o subtenente torcendo o bastão, mordendo, mastigando. Quando você está com raiva, você trinca os dentes.

Eu mandei o subtenente para outra base e fiquei eu na frente do moleque. Ele continuou falando. E eu não me abalo. A primeira coisa que eu penso é: é um idiota, como é que eu vou me irritar com um idiota? Eu sou melhor que ele. Se fosse um cara que eu respeito, um coronel dizendo que eu estou dando mole, aí me ferra, porque é gente que eu admiro. Vindo de um idiota, não tem como me afetar.

Mas para eu ser assim, eu já paguei muita etapa. Meu pico de cortisol é alto. Pico de cortisol, do jeito que eu explico, é o seu limite de estresse antes de você perder o controle. O meu é muito alto de tanto problema que eu enfrentei, e por isso eu sou tranquilo. O curso de formação tinha que ter estresse muito alto para quê? Para que nada depois daquilo conseguisse te estressar.

Curso sugado

estresse alto e repetido
pico de cortisol sobe
nada depois consegue te estressar
calma na hora que vale vida

Curso amamãezado

estresse baixo
pico de cortisol baixo
qualquer coisa estoura o limite
luta ou fuga por bobagem

O contrassenso que quase todo mundo aceita: dizem que curso mais humano forma gente mais humana. Mentira. Quem fez curso molezinha tem pico baixo, e quem tem pico baixo se estressa mais fácil com as pessoas.

Um cara muito calmo é porque ele tem controle emocional muito grande ou porque tem pico de cortisol muito alto, e aí nada estressa ele. Um cara totalmente chiliquento é porque foi criado com muita proteção. Ele não tem resistência ao estresse, então qualquer coisa estoura o pico dele.

Medo é uma característica base. Todo mundo vai sentir medo em tudo que faz. Ele é um sentimento básico. Coragem é uma escolha, é racional. Você escolhe ser corajoso.

Eu fui sugado. Na academia minha numérica era 71. Os veteranos entraram perguntando quem era o aluno problemático, e apontaram para mim, porque eu tinha peitado um terceiro ano que esculachou um moleque falando com a mãe no telefone. Me buscavam de madrugada no alojamento para me sugar. Teve dia em que eu não consegui jantar porque me sugaram até passar da hora. Levei banho de spray de pimenta. E eu banquei tudo. Nunca reclamei. Alguém dedurou depois, me chamaram para depor, e eu disse que foi do treino, que não teve nada demais. Não prejudiquei ninguém. Virou todo mundo meu amigo. Meus veteranos me sugaram tanto que viraram meus amigos.

O seu instrutor está te testando, e faz sentido que teste. Imagina que você é funcionário e vai receber na sua empresa quem amanhã ou depois vai estar na linha de frente contigo, carregando piano, tomando esporro, salvando sua vida. Você quer alguém pior que você? Não. É de você para cima. Natural que quem já está lá cobre mais.

Não se leve tão a sério: é aqui que se perde o curso

Este é o bizu mais importante que eu te dou. Muita gente perde curso aqui.

Você é testado fisicamente, paga flexão, paga polichinelo, aquilo te consome. Aí entra no desespero, e no desespero você cria o inimigo que não existe. Junta muita gente no mesmo lugar e o ambiente masculino é extremamente tóxico por natureza: homem se zoa, se pilha, um tentando atacar o outro. É jeito de se organizar hierarquicamente: força, violência, piada, bullying, depreciação, patota.

E toda zoação tem um único objetivo: gerar reação. Todo mundo que reage a uma zoação vai ter mais zoação amanhã, porque atendeu a expectativa do cara e deu reforço positivo. Ele vai repetir.

Você não quer ser zoado? Vira uma pedra cinza. A pedra não altera com nada, não muda de cor, não muda com temperatura. Exemplo: os instrutores do BOPE, na parte de água, testam quem tem problema com água. Me deram uns três caldos, eu aguentei. Eu fui para o fundo mais fundo que o instrutor, e foi o instrutor que desistiu e voltou. Aí ele falou que não dava para aterrorizar aquele moleque na água e foram pegar outro. Eu era pedra cinza na água.

Com o instrutor é a mesma física. Ele te põe em cheque, te faz parecer que errou, e é injusto muitas vezes, por vontade ou não. Eu sou injusto com aluno por vontade. Numa vez mandei o coordenador do curso fazer os alunos mergulharem para pegar pedra num açude, e mandar voltar tanto quem pegasse pedra pequena por malandragem quanto, aleatoriamente, quem tivesse pegado pedra grande. Ele perguntou por quê. Eu expliquei: esses moleques vão sofrer uma porrada de injustiça depois de formados. A sociedade não apoia, a família do criminoso joga carga, a facção joga carga, nem nossa família entende a gente. E a gente não pode parar, porque se parar, pessoas boas vão morrer e pessoas boas não vão ser resgatadas. Se a nossa vontade só funciona quando é justo, a gente não funciona aqui. Precisamos saber quem não dá conta da injustiça.

Se você dá chilique ou dá mole numa apresentação, cai sangue na água e o tubarão vai tentar te morder. Não leva a sério. A vaidade e o ego atrapalham. Você está ali com 90% do seu sonho e por vaidade troca 10 por 90. Uma porrada de gente faz isso. A maioria das neuroses é construída através de orgulho e vaidade.

Eu também tive que aprender. Nunca me levei a sério ao ponto de pensar em desistir, mas me estressava com coisas bobas quando era cadete, porque eu achava que uma coisa era certa e queria que todo mundo fosse certo. Depois de aprender a lidar com isso, num curso de proteção de autoridade em que era para cada um ser xerife um dia, eu peguei o primeiro dia e a coordenação não me deixou sair mais: fiquei quarenta e cinco dias como xerife. Por quê? Porque tinha a galera mais bagunceira e eu sabia levar, tinha a galera mais nerd brigando por nota e eu também sabia levar. Eu não levo as coisas tão a sério.

Não seja moita, e não pule de otário a malandro

Muito pela saco vai te dizer que o macete do curso é ser moita. Moita é o cara cinzento: não tem coragem e não foge, fica disfarçado no bolo, anda no cardume, não assume responsabilidade nenhuma.

O problema é que curso de formação é para errar. Tudo que você errar ali vai ser tolerado. Tem coisa que toleram de mim como aspirante e não toleram como capitão ou major. Curso de formação é a fase em que você pode gastar todos os "não sabia". Ninguém vai tolerar malandragem, mentira ou falta com a verdade, mas problema de recruta todo mundo atura. Deu comando errado, virou a tropa para o lado errado na hora que o comandante passou, não prestou continência a quem devia: paga essas etapas e não se incomode.

O moita é medroso. Tem medo das etapas físicas, da pressão, da crítica. Alma pequena. E quando você chegar formado, isso vai te fazer falta, porque você não testou. Você não foi xerife, você pagou para alguém ser xerife no seu lugar. Aí, quando chegar valendo lá na pista, o medo impede o seu crescimento de cortisol.

Tudo que é ruim de passar é bom de contar.

O outro erro é o oposto, e é o mais caro de todos. Muitos de nós vêm de uma vida difícil, com poucos recursos, com pouco contato social. Aí você entra no quartel e encontra os moleques que já são malandros de pista, malandros de relacionamento, malandros de vida. Eu cheguei no quartel de fuzileiro vindo do interior e era um virgem comparado a eles.

Cuidado para não cometer o erro de ir de otário a malandro. Esse processo é longo. Quem era otário há dois minutos e virou policial e começou a se achar malandro vai fazer merda. Um veterano meu, hoje major, fala exatamente isso: quem é malandro é malandro desde sempre, já construiu aquilo há muito tempo. Quem quer mudar rápido faz merda.

É muito fácil ser honesto quando você não tem a chance de roubar. É muito fácil ser fiel quando não tem nenhuma mulher te dando mole. É muito fácil você ter dignidade quando você não é testado.

E quando você é testado, a gente vê o que sobra de você. Eu não estou falando de dinheiro nem de coisa criminal. Estou falando de honra, dignidade, moralidade, família, que muita gente perde porque trocou valores por momento. Eu lembro de chegar numa boate já formado e gente que nunca teve amizade comigo vir querer ser meu amigo. Quando eu catava latinha eu não tinha tanto amigo assim. Você constrói novos amigos, claro que constrói. Mas não é a mudança brusca. Toda vez que você estiver sendo testado, volta na sua lista.

Busque referências e não desista

Um macete: observe os instrutores e busque referências. Às vezes o cara é bom instrutor e má pessoa no comportamento. Tira a parte boa. Pegue o melhor de cada um e ignore o pior. Vai ter otário em todo lugar, então se acostuma com instrutor idiota e com pela saco, e ignora essa parte.

Eu tenho instrutores que falam errado, mas o cara tem quarenta anos de guerra. As lições que ele te dá para combate você não acha em livro. É só de quem andou no terreno. Eu durante muito tempo fui idiota como todo mundo é quando é mais novo, e desmerecia instrutores. Vaidade de jovem é desgraça. No BOPE ficou claro para mim: tive instrutor com vocabulário limitado que ensinava ouro. Se você for um moleque arrogante, você não para para aprender.

E existe uma justiça aí que quase ninguém enxerga como justiça. Todo mundo banca sua etapa e aí não é injusto para ninguém. Hoje a etapa de ser recruta é pesada, amanhã vai ser outro sendo recruta. Hoje você chega soldado e é você que limpa a viatura, amanhã vai ser outro soldado fazendo. Mais carga em quem está começando, mais tempo e direção para quem está comandando. Seria injusto um cara que já pagou sua etapa voltar porque o garoto que chegou não consegue fazer a dele.

Agora, o número que desmonta o medo de vocês. Curso de formação não é feito para reprovar, é feito para formar o máximo de gente possível dentro do aceitável. Curso de seleção é outra coisa: ele existe para filtrar.

550entraram no meu curso de fuzileiro
361formaram nesse mesmo curso
70entraram no meu COESP
22formaram, só 17 do Rio

No meu curso de formação de oficial entraram cerca de 85 e formaram uns 77. No COESP, que é seleção, tiveram quase 700 inscritos, entraram 70 e formaram 22. A peneira de um curso de seleção vai sempre enxugando para 10%, 5%, 17%, e já teve COESP que formou três pessoas. Curso de seleção você até vai ter algumas preocupações. Curso de formação vai formar.

Olha o pior cara que você já viu formado e fala: se aquele ali formou, eu também consigo.

E não desista. Todo curso que você faz parece o pior enquanto você está nele. Eu nunca vi alguém que desistiu do curso do BOPE e não se arrependeu. O cara fica com um ressentimento e a alma meio travada. Eu encontrei, no curso que fiz em 2023, gente que tinha tentado o COESP em 2012 e que ainda parava do meu lado todo dia para falar do COESP. Ele não saiu daquele dia. Não passou por aquele dia.

Se depois você não quiser aquilo para você, forma e depois abre mão. Mas não deixe de concluir processos, porque concluir cria em você a crença de ser capaz.

E a amizade, que é o que sobra no fim

Aproveita o curso de formação e cria laços.

Ter amigos vale mais que dinheiro, filho.

Um telefonema com amigo resolve o problema que dez ofícios e hierarquia de coronel não resolvem. Um amigo resolve o problema que não está na regra, e cumpre para te ajudar. A suga e a babaquice criam irmandade. Eu não tenho problema com nenhum veterano meu, são todos meus amigos, e eu escolhi batalhão por causa de um veterano.

Isso vale muito mais que uma nota alta. Existe no curso o que se chama FAD, o conceito que os instrutores dão e que soma na sua nota. Ela tem peso grande porque teoricamente mede as coisas que o papel não escreve: se o moleque é proativo, esforçado, disciplinado, cumpridor, se você dá missão para ele e não se preocupa. Eu sempre tive FAD alta porque sempre fui proativo. Nunca tão alta quanto os caras que são 01, porque às vezes eu sou meio recalcitrante. Eu fui 01 no COESP e nenhum dia trabalhei pensando nisso. Todo dia eu pensava que só precisava formar e fazer o melhor que eu podia.

Sendo proativo eu nunca fui puxa-saco, e isso confunde muita gente. Se me perguntam a opinião, eu respondo, e não concordo com idiotice. Se não me perguntam, eu cumpro.

Isso não acontece só dentro de quartel

Repara no que está por trás de tudo o que eu escrevi. O processo é a mesma coisa em qualquer lugar onde alguém entra novo: quem já está lá cobra mais para saber se pode contar contigo na linha de frente, o novo tem uma janela curta em que errar é tolerado, e a coisa que decide quem fica não é desempenho físico nem nota, é como a pessoa reage a pressão e a injustiça.

Eu mesmo uso a comparação com a empresa quando explico por que o instrutor pega no seu pé: você é funcionário e vai receber quem amanhã vai estar do seu lado carregando piano e tomando esporro. Você quer alguém pior que você?

Ler isso mostra o mecanismo. Não instala o mecanismo em ninguém. Quem decide a formação de uma equipe sabe que a diferença entre alguém que aguenta o primeiro ano e alguém que pede para sair não aparece em prova, aparece na primeira vez que a pessoa é testada e acha que a pressão é pessoal. Essa conversa se faz na mesma sala, com quem já teve que decidir sob pressão de verdade e pagou o preço.

Solicite uma proposta de palestra.

Usa essas regras: não leva para o coração, cumpre a sua etapa sem reclamar, vive o momento, respeita a hierarquia da situação, não pule de otário a malandro, não negocie seus valores. Cumpre, filho, que você vai dar certo.

As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.