Cultura de Alta Performance
O café não te dá energia: ele desliga o aviso de cansaço
Major Ronald Cadar explica por que o café da manhã pode estar criando a sua procrastinação, o que ele aprendeu depois de quebrar, e o protocolo que ele usa hoje para render sem se enganar.
Eu era cadete, tinha competição de natação, e um moleque da minha turma tinha furado. Sobrou para mim. Antes da prova o Manzani me deu três cápsulas de um pré-treino, daqueles fortes. Eu nunca tinha tomado aquilo na vida.
Fiz três, quatro provas. Uma delas de 400 metros. Te juro: eu não senti cansaço. Quem compete em alto rendimento sai da competição amassado, precisando de energia. Eu saí zerado, trincado. Tanta energia que parei para fazer barra depois da prova.
Aí eu peguei o ônibus de Realengo para a zona sul. Uma hora de viagem, ônibus apertado. E dentro dele as coisas começaram a ficar em câmera lenta, a boca secou, e me deu uma agonia braba. Eu pensei: vou abrir essa janela e vou pular. Hoje eu sei o nome daquilo. Foi quase uma crise de ansiedade.
Repara no que aconteceu ali, filho. O cansaço estava lá o tempo todo. Eu é que tinha desligado o aviso.
O café não te dá energia. Ele anula a sua percepção de cansaço
Esse é o ponto que muda tudo e quase ninguém entende: o café não é uma fonte de energia. Ele é um bloqueador.
A função principal dele no cérebro é bloquear a adenosina, que é o neurotransmissor que sinaliza o cansaço. A adenosina vai subindo ao longo do dia até bater um pico, e nesse pico ela te empurra para sono, descanso, repouso, que é o que faz ela voltar ao normal. O café trava esse aviso. Por isso você toma e sente aquele levante, aquele "se liga". E por isso é viciante: as pessoas ficam voltando nesse se liga.
Só que ele não te deu energia nenhuma. Ele te deu cegueira.
O café não te dá energia, ele anula sua percepção de cansaço. E aí vira um tapa buraco. Isso a longo prazo te quebra, porque você vai sempre achando que tá com energia, e não tá.
Pensa na adenosina como velocidade. Normal, ela sobe a 20 km/h. Cansado, 50. Fadigado, 100. Quando você vai usando o bloqueador, ela já está a 100, você já está no limite, mas não percebe. Vai fingindo que não está.
O caminhoneiro é o exemplo mais duro. Ele ganha por carretagem. Sai de Goiás para o Rio Grande do Sul, e a viagem que levaria três dias respeitando o sono leva um dia e meio se ele não respeitar. Aí ele vai de estimulante. E chega um dia em que ele está dirigindo e faz assim, ó. Nem viu. Porque quando você desliga o aviso, você desliga sem sintoma antes. O aviso é justamente o que te daria tempo de encostar o carro.
É uma dívida que não para de crescer.
O café da manhã pode ser a causa da sua procrastinação
Aqui está a parte que ninguém te conta, e que na minha vida foi a mais cara.
Comecei acompanhamento com médico com 36 anos. Descobri que eu tinha um problema de cortisol: o meu era zerado. E um dos fatores que colaborava era o café.
O cortisol é o hormônio da vigília. Ele é o start do dia. Ele é o que faz você acordar e ir. Ele sobe justamente quando a adenosina sobe e avisa que você está cansado. Mas se você bloqueia a adenosina logo cedo, você bloqueia o ciclo de cortisol junto. Sem cortisol, sem start. Sem start, você é um procrastinador.
E eu era o caso perfeito. Eu programava a cafeteira para fazer o café 20 minutos antes de eu acordar, para já acordar com o cheiro e ir direto tomar. Ritual gostoso. Acordava às 5 da manhã para combater a insônia e só ia treinar às 8, quando já estava no limite do horário, quando se eu não treinasse ali eu não treinava mais. Meu dia não rendia porque eu ficava horas alienado, tomando café, esperando.
Café por hábito
Café estratégico
O mesmo café, dois resultados opostos. A diferença é o horário, não a força.
Se você fala que procrastina muito, talvez o problema não seja caráter. Talvez seja horário.
O que eu faço hoje, depois de ter quebrado
Eu cheguei a dormir 4 horas por noite. Fiquei quase dois anos assim, e não recomendo. Eu quebrei. E quando quebrei foi de saúde: tive problema alérgico, embolei uma porrada de problema junto. Foi um ano muito ruim.
O motivo eu sabia. Eu tinha mulher grávida, filho nascendo, mudança de emprego, projetos rodando e uma habilidade nova para aprender. Chamei para a carcaça e falei: foda-se, eu dou conta, sou bravo. Aguentei bastante tempo. Mas fui esticando, esticando, esticando, e o corpo quebra.
Sacrifício tem que ter prazo, filho. Por mais que tu seja um cara acima da média, por mais que tu seja um cara determinado, você precisa de prazo. Descanso também faz parte do treinamento.
Hoje eu acordo 4 da manhã e vou até 11 da noite. São tiros de cinco dias. Chego na sexta muito moído, o rendimento de treino cai, e eu sei disso. Sábado e domingo eu acordo a hora que acordar, faço o que tem que fazer, deu cansaço eu paro e durmo de novo. Vou reabastecendo para chegar na segunda e aguentar de novo.
E o café entrou na rotina com hora. Eu treino, venho gravar, paro, tomo um café e escrevo o quadro. Aumenta o foco, aumenta o ânimo, tira a percepção de cansaço na hora em que eu preciso disso. É o café do dia. Eu tomo essa xícara.
Este é o meu uso, calibrado na minha resistência. O horário de corte varia de pessoa para pessoa: tem gente que vai até 15h, 16h. Você tem que avaliar a sua.
Os números que fazem esse protocolo ter lógica
Não é regra inventada. É que o café tem tempo de permanência e tem consequência quando você atropela isso.
- 8 a 12 horas: é o tempo que ele fica no seu organismo bloqueando o cansaço. Por isso o café da tarde ainda está lá quando você deita.
- 90 minutos: é o intervalo que eu espero depois de acordar, para não sequestrar a produção de cortisol.
- Até 60%: é o quanto tomar café logo depois da refeição atrapalha a absorção de ferro e de outros minerais como cálcio, zinco e magnésio. E o magnésio é um dos elementos necessários para constituir a serotonina.
- A cada 6 semanas: a parada de 5 a 7 dias que faz o efeito voltar a crescer quando você retoma.
Repara na consequência do terceiro item. Você toma café demais, atrapalha a absorção dos minerais que constroem o neurotransmissor da satisfação, e aí você não sente satisfação. E fica achando que é problema de cabeça. Às vezes é um problema físico que reflete na cabeça.
"Mas eu preciso estudar depois de tal hora"
Beleza, filho. É a tua estratégia, tu que banca.
Só saiba o que você está comprando. Não é aumento de energia, é percepção. Uma hora tu quebra, e aí precisa ter o momento de recompensar. Você não está adiantando trabalho, está tomando emprestado, e o juro vem.
E tem o outro lado da conta, que é a tolerância. Todo neurotransmissor se ajusta: quando você consome sempre, o corpo vai aumentando o quanto precisa para entregar o mesmo efeito, justamente para tentar não te viciar. Só que você criou um hábito sistemático, então fica repetindo. Aí, para ter o mesmo resultado, em vez de três xícaras você precisa de dez. Quando chega na saturação, começa a dar ansiedade, insônia, irritabilidade e redução de dopamina.
A parada que você diz que não posso viver sem, porque sem isso eu não produzo, começa a te fazer não produzir.
Se você chegou nesse ponto, não é hora de tomar mais. É hora de rever a estratégia.
Se você quiser cortar, tem alternativa
Não é ficar sem nada. Isso eu faço de tempos em tempos, e não é por causa do rendimento. É porque eu tenho um incômodo: toda vez que me sinto refém de alguma coisa, eu corto. Eu prezo muito ser livre. Fico alguns dias sem tomar café só para provar que eu controlo o meu corpo.
O que funciona no lugar:
- Água ao acordar. Segundo estudos, 600 ml de água ao acordar ativam o corpo. A água entra e avisa o organismo que não tem mais ninguém dormindo ali, tem que religar. É o religamento natural.
- Chá verde, que dá uma resposta de energia sem ser café.
- Descafeinado, se você está no vício. Toma duas, três xícaras do normal e depois passa para o descafeinado. Mantém o ritual sem levar o dano.
E tem a parte que não se substitui: o sono. O sono é a hora da regeneração. Tudo que você descompensa durante o dia para exercer as suas funções é na hora do sono que você recupera. É como aquela limpeza no celular, que estava lento, você limpa e ele volta rápido. É exatamente isso que acontece quando você dorme.
Por isso cognição e memória são as primeiras coisas que você perde quando não dorme. O cansaço sobe, o cortisol sobe, a vigília sobe, você fica mais tenso, e você perde córtex. Pessoa estressada é burra. Desculpa falar, mas é verdade. Quando você vê um cara muito explosivo, já sabe: não vai ser bom de combate. O mais perigoso é o cara calmo, porque esse mantém o raciocínio.
O que isso tem a ver com uma equipe
Eu banquei o curso do BOPE inteiro só no café, sem estimulante nenhum. Fiz isso com 28 anos e não foi fácil. Mas na época eu não sabia dessas estratégias. Hoje eu saberia, e eu regularia melhor.
É essa a diferença que eu tento passar. Não é sobre café. É sobre entender que o corpo é uma sequência de processos, e que quando você quebra um, sobrecarrega uma porrada de outros que eram necessários.
A maior parte das equipes de alta pressão que eu vejo faz exatamente o que eu fiz como cadete: cobre o cansaço com estimulante, acha que está com energia, e descobre a conta no pior momento possível. Ninguém falha por falta de vontade. Falha porque estava operando com o painel desligado.
O convite
Se você é responsável por um time que trabalha sob pressão, prazo e carga contínua, o problema que você chama de queda de produtividade ou de falta de engajamento muitas vezes não é motivacional. É um time inteiro operando com o aviso de cansaço bloqueado, entregando na base do tranco até alguém quebrar. Palestra motivacional não conserta isso. Entender o mecanismo, conserta.
É disso que eu falo quando entro numa empresa: como manter rendimento alto sem tomar emprestado da saúde do time, e como reconhecer o limite antes dele cobrar.
Solicite uma proposta de palestra e a gente monta o conteúdo em cima da realidade da sua operação.
E é só o começo.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.