Mentalidade Imperturbável
Toda luta não feita já é uma derrota: como eu aprendi a hierarquizar o medo
O medo não se elimina, se administra. O método que eu uso para atravessar o medo e a conta que quase ninguém faz: o custo do que você deixou de encarar.
Eu demorei cinco anos para ter coragem.
Não cinco dias. Cinco anos. Eu tinha o dinheiro juntado da minha vida toda parado, tinha o projeto de construção na cabeça, e toda vez que eu pensava em botar a mão ali eu recuava. Ficava procurando um jeito de investir sem gastar tudo, porque eu não podia ficar sem reserva. Eu venho de uma infância de escassez. Eu já vi como era não ter nada e ter que pedir para comer. Isso me aterroriza até hoje, e o meu passageiro da agonia joga isso na minha cara toda vez que eu chego perto de uma decisão grande.
Cinco anos parado não é prudência, filho. É medo com um nome bonito.
A tese: o medo não se vence, se hierarquiza
Ninguém deixa de ter medo. Todo mundo tem medo, e quem diz que não tem está mentindo ou não entendeu a pergunta. O que acontece é que algumas pessoas administram.
Quando eu digo que não tenho medo de morrer, eu não estou dizendo que a morte não me assusta. Estou dizendo que eu tenho, do outro lado dela, coisas que valem mais. Envergonhar a minha família parece muito pequeno perto de morrer? Não. É o contrário: a morte é que fica pequena perto disso.
Essa é a mecânica inteira. Quando você tem coisas maiores do que o medo, ele se torna pequeno. Não é bravura, é hierarquia de prioridades. Você não apaga o medo, você coloca alguma coisa mais pesada do outro lado da balança e a balança decide por você.
Ele é um sistema de segurança no teu corpo. Só que se descontrolado, ele vira um sistema de trava e aí trava a tua vida.
A alegoria da casa pegando fogo
Eu uso essa imagem porque a nossa mente funciona melhor com imaginação. Não é à toa que há dois mil anos o cara que mudou o mundo mudou através de parábolas.
Imagina o seguinte. A sua casa começou a pegar fogo. A sua família está toda dormindo lá dentro. Você não está em casa, você precisa chegar em casa. E no caminho está o valentão, o cara que faz bullying em você, o sujeito de quem você nunca ganhou uma. Ele disse que você não vai passar.
Eu pergunto isso no direct e a resposta é sempre a mesma: "eu vou enfrentar". Aí eu insisto: mas você nunca ganhou dele. E a pessoa responde: "Cadar, mas a minha família está lá".
Pronto. É exatamente assim que se começa a enfrentar o medo.
Agora repara na tradução de cada peça, porque é aqui que a alegoria deixa de ser história e vira ferramenta:
- Você é você mesmo. Não tem terceirização.
- O valentão é o medo. Ele não some, ele está parado no caminho.
- A casa pegando fogo é o passar do tempo. O fogo é o tempo.
- A família é a finalidade. No final de tudo, a finalidade de quase tudo é o bem familiar.
E se você não tem família? Um dia você vai ter. As coisas que você resolveria aos 20 deixariam sua família protegida aos 30. Você não resolveu aos 20, não quis enfrentar o valentão. Aos 30 a sua casa já está pegando fogo: o filho nasceu, você não tem recurso, a sua vida não estabilizou. Não porque faltou competência. Porque faltou encarar.
Quando você tem uma necessidade, filho, tu encara tudo.
Antes da alegoria, tente racionalizar
Nem todo medo precisa de coragem. Uma boa parte deles morre só de ser olhado de frente com uma conta na mão.
Medo do escuro é o exemplo mais limpo. Você acende a luz, olha o cômodo, apaga a luz. Agora não tem mais para que ter medo. E se você quiser montar a estatística: quantas pessoas entraram num quarto escuro e morreram? Nenhuma. Então por que eu vou morrer?
Racionalizar o medo já faz ele reduzir. O problema é que as pessoas fazem o inverso: elas criam medos ilógicos para justificar o medo que já têm. Eu ouço muito "tenho medo de ser policial por causa da minha família". Irmão, coloca isso no papel. Quantas famílias de policial são atacadas porque o cara é policial? Estou há vinte anos nisso. Objetivamente, nenhuma. Pode acontecer retaliação numa situação específica, você reage a um assalto com a família no carro e a coisa dá errado, e por isso existe procedimento. Mas ninguém vai atrás da família.
A ordem é essa, e ela não muda:
- Racionalize primeiro. Monte a conta, monte a estatística, olhe o número.
- Se o medo continuar ali, use a alegoria do fogo. Coloque a família dentro da casa e o tempo como incêndio.
- Se nem isso resolver, abra o chuveiro gelado e dê o passo para dentro. Dez segundos de coragem, e depois é lutar pela vida.
Cada degrau só existe se o anterior não resolveu. A ordem importa: quem pula direto para o terceiro confunde coragem com impulso.
O custo que ninguém coloca na planilha
Aqui está a parte que interessa a quem toma decisão.
Toda luta não feita já é uma derrota. Todo desafio que você não encara já é uma derrota. Os que você encara, talvez você ganhe. Aí vai valer o seu preparo, a sua condição, o seu hábito de estar sempre se desafiando.
Repara na assimetria. A decisão não tomada tem resultado conhecido e ele é zero. A decisão tomada tem resultado incerto e ele pode ser positivo. Mesmo assim a maior parte das pessoas e das equipes escolhe a primeira, porque o não feito não aparece em lugar nenhum. Ninguém é demitido pela oportunidade que não perseguiu. Não tem relatório de conversa que não foi tida.
O medo é suave. Ele passa batido em várias coisas, e vai te afastando dos seus objetivos sem nunca se apresentar como medo. Ele se apresenta como bom senso, como falta de momento, como necessidade de mais dados. E amarra a gente naquele mundinho medíocre.
Eu odeio mais ser medíocre do que ser derrotado. Quando você vai entrar numa luta, você tem que odiar mais ser fraco do que ser derrotado.
A objeção honesta: isso não é convite para estupidez
Existe medo e existe estupidez, e confundir os dois é o jeito mais rápido de se destruir usando as minhas palavras como desculpa.
Se tem trinta caras armados ali e você resolve entrar, isso não é coragem. Isso é burrice. Coragem é um ato racional. É você racionalizar e assumir o risco: eu arrisco tanto, se eu ganhar eu ganho tanto, se eu perder eu perco tanto, dá para jogar. E eu não estou falando de casa de aposta, filho. Estou falando de investimento.
Foi o que eu fiz na obra depois de cinco anos travado. Eu parei de perguntar aos outros e fui estudar. Pedir conselho serve até um certo limite. A sua confiança só vem quando você começa a assumir: você pega o conselho, estuda, busca informação, monta uma linha de raciocínio, monta um plano, e aí decide. Homem decide, e também assume as consequências.
E assumir consequência foi literal. A obra quase não ficou pronta e eu já estava sem dinheiro. Foi uma das piores fases. Peguei empréstimo, estourei o limite do cartão, botei tudo para rolo. Deu certo. Está dando certo. Mas eu não vou vender para você que ficou fácil depois que eu tive coragem. Nunca é simples. Não é porque você tem coragem que agora vai ser fácil.
Eu também já entrei em troca de tiro com um plano que eu sabia ser idiota. Eu sou um bom planejador e eu vi que o plano era ruim: estávamos em menor número, em terreno desfavorável, sem efeito surpresa. Mas o meu instrutor entrou, e eu respeito demais aquele cara para deixar ele sozinho. Entrei junto. Deu certo, e deu certo porque os bandidos eram ruins, não porque o plano prestava. Os códigos que me amarram para não fazer qualquer coisa são os mesmos que me dão força para enfrentar coisas absurdas. Isso tem custo, e o custo é seu.
A prova mais simples que eu tenho
Tem uma escalada no Rio de Janeiro chamada Pedra da Gávea, e tem um trecho carrasqueiro que chega perto dos noventa graus. Eu fui criado na roça, subo aquilo tranquilo. Naquele dia eu devo ter subido e descido umas dez, quinze vezes, ajudando quem estava com dificuldade.
A Gabriele tinha medo de altura e não queria ir. Eu forcei. Ela foi reclamando, foi brigando comigo o caminho inteiro. Quando chegou lá em cima, no alto da pedra, estava felizona. Feliz porque a vista é linda, feliz porque conseguiu, feliz porque venceu o medo.
Depois que você vence um desafio, você fica gigante. Quando você entra na arena, a vista é muito melhor.
Não deixe de fazer, não deixe de encarar, porque isso vai ter consequências na sua vida para sempre.
O que fazer com isso amanhã de manhã
Pega uma decisão que você está adiando. Uma só, a que mais pesa.
- Escreva o medo em uma frase. Não vale escrever que você está inseguro. Escreva o medo específico: perder a reserva, ser criticado em público, ouvir não.
- Tente matar ele na estatística. Quantas vezes isso já aconteceu de verdade, com gente de verdade? Se o número não sustenta, o medo era imaginação e você acabou de resolver boa parte dele.
- Se sobreviver à conta, coloque a família na casa. O que está pegando fogo enquanto você espera? Quanto tempo você já queimou nisso?
- Nomeie o preço da derrota. Se der errado, o que exatamente acontece? Quase sempre ninguém arranca o seu braço. Se você não passar na prova, você tenta de novo.
- Marque a data e entre. Dez segundos de coragem, e depois é lutar pela vida.
Se o medo, no geral, é psicológico, criado na nossa imaginação, e é isso que gera aflição, entender isso já resolve boa parte do que te trava. O resto você vai contornando, vai aprendendo a adaptar. Mas tem que enfrentar.
Se o que trava é a sua equipe, e não só você
Um artigo mostra o mecanismo. Ele não instala o hábito, e não muda a cultura de um time que aprendeu a chamar hesitação de prudência.
Se a sua empresa está num ciclo em que a decisão não tomada já está custando caro, e você percebe as pessoas travando não por falta de técnica mas por medo de errar na frente dos outros, é aí que a conversa presencial faz o que o texto não faz. Eu levo essa metodologia para dentro das empresas nas palestras de Mentalidade Imperturbável, com as cenas reais que estão aqui e as que não cabem em texto.
Podem duvidar dos nossos métodos. Ninguém pode duvidar dos nossos resultados.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.