Mentalidade Imperturbável
O melhor perdedor vence: como treinar tolerância à derrota em dose controlada
Time que nunca perde pequeno quebra quando perde grande. O método que uso para treinar tolerância à derrota com estressores de dano controlado.
Antes de subir num palco eu falo para a minha esposa a mesma frase que a gente falava no BOPE antes de uma operação: "vou ali mijar o medo."
Ela ficou meio assim quando ouviu. A gente estava trabalhando junto, ela pouco tinha trabalhado comigo até ali, e perguntou: "mas você está com medo, amor?"
"Amor, eu sempre estou com medo. Só que eu vou para cima."
Repara no que está acontecendo nessa cena, porque é o oposto do que vendem por aí. Eu não perdi o medo. Ele continua ali, antes da palestra, como estava antes da operação. É inerente à minha carne, é fisiológico. Eu tenho medo como todo mundo, tenho as irritações de todo mundo, tenho as angústias de todo mundo. A diferença é uma só, e é uma diferença que se constrói: eu já perdi muito.
A tese: a tolerância à derrota é treinada, e quem não treina paga o preço no potencial
O melhor perdedor vence. O cara perde, perde, perde, perde, e agora ele ganha, porque não desistiu. Só que suportar o processo da derrota é antinatural. A maioria quebra porque reage por instinto: se bloqueia, foge, não quer mais fazer. Ou age com emoção, briga, e aí já não era estratégico. Estratégico ganha força, filho.
É a dicotomia das coisas. Ou é medo ou é coragem. Coragem é nítido quando é. Matou no peito, assumiu o risco, fez.
E o preço de não treinar isso não aparece como derrota. Aparece como potencial não exercido. Você nunca está totalmente comprometido, porque comprometimento total abre a chance de fracassar na frente dos outros. Quem teme a dor mais do que teme o fracasso colhe os dois.
Por que o medo trava tanta gente competente: não tem mais tigre
O medo inicial é um sistema de alerta. Ele existia para te avisar do tigre. Só que não tem tigre, filho. Não tem mais tigre.
O que tem é crítica. É ficar sozinho. É uma porrada de coisa que não mata. E as pessoas paralisam por isso, porque se preocupam com o que vão achar delas.
Repara no padrão que chega no meu direct toda semana. "Cadar, eu quero fazer isso." E por que não fez? "Ah, eu tô no emprego ruim." Então por que não vai lá e bota a cara noutro lugar? Daí para frente é tudo desculpa. E quem é bom de desculpa não precisa ser bom em mais nada.
Aí nasce o vitimista. O cara que não quer assumir que está paralisado por medo bota a culpa em alguém para justificar o que ele não faz. Chegou um assim: sempre teve o sonho de ser policial militar, conheceu a carreira, não era bem como imaginava, queria mudar o mundo e a instituição não deixa, tem problema em casa, não colocam ele perto da família. Filho, você foi para o emprego, o emprego tem as regras dele. Não está satisfeito, pede para sair e vai correr atrás em outro lugar. Quer fazer do seu jeito? Abre a sua própria empresa, compra o teu barco, vira dono dele e vai fazer.
O que trava não é a instituição. É o medo. As coisas que te incomodam mostram fraqueza em você. Isso é diagnóstico, não é ofensa. Se eu me irrito com um cara, é porque eu sou mais fraco naquele ponto. Deu o diagnóstico, agora tem que ficar mais forte que ele.
Medo mata mais que tiro. Tem uma porrada de morto vivo andando por aí: não está onde quer, não vive como quer, não faz o que deseja, e se afoga em vício para anular a própria irritação com a vida.
O mecanismo: dose controlada, porque a diferença entre cura e veneno é o tamanho da dose
Como é que a gente treina para um processo? Pequenos estressores. E vai aumentando os estressores até chegar um ponto em que os pequenos já não incomodam mais.
Na linguagem que eu uso, isso é levantar o teu pico de cortisol. Eu demoro para ter sequestro da amígdala. Pouca coisa me tira do sério, pouca coisa faz o meu disjuntor virar. Meu bicho está aqui, na coleira, controlado. Eu sei tirar a coleira, mas pouca coisa faz eu tirar sem perceber. Não é dom. É que eu não fui criado na vitória, fui criado à base de derrota. Foram centenas de derrotas, constrangimento, humilhação. Já me tiraram tudo, sobrou catar lixo. Naquela fase da adolescência em que todo mundo já se sente mal porque não tem valor agregado, eu ainda era o catador de lixo, ponto negativo. Foi isso que me fez entender o que era necessário e o que era bobeira.
O ponto operacional está no tamanho da dose. Estressor de dano controlado, não veneno. Não é apostar um milhão na bolsa.
- Perder para o faixa branca mais fraco da academia.
- Pedir para ler o texto em voz alta na sala.
- Falar com alguém com quem você nunca falou.
- Assumir na frente do time que você errou em algum lugar.
Se você não tem maturidade para calibrar a dose, não faça. Essa parte é sua.
E a derrota, tomada assim, para de ser fim e vira feedback. Falei na sala e gaguejei: tenho que melhorar a fala. Me importei demais com o que pensaram: é isso que eu tenho que trabalhar. Eu vi alguém contar a regra das cem tentativas de venda, e não li isso em livro nenhum: a aluna tinha que fazer cem ligações e anotar em cada uma o que acertou, quanto durou e o que dá para melhorar. No primeiro dia foram uns setenta e poucos fracassos, no segundo cinquenta, depois quarenta e poucos, trinta, vinte. Chegou num ponto em que a cada vinte ligações saía uma venda. A meta era falhar cem vezes. O resultado foi a competência.
A escada tem topo. Passar dele não treina ninguém, só machuca, e a mesma coisa que cura vira o que destrói.
O segundo uso do fracasso, que quase ninguém aproveita: ele revela quem é quem
Perder em público serve para duas coisas. Uma é levantar essa curva de forma estratégica. A outra é revelar quem está do seu lado porque escolheu estar, e quem está porque é útil estar.
Eu passei por um problema pessoal de família que refletiu na vida e fiquei um tempo isolado na sala, virei meio que o estranho. Quando teve trabalho em grupo, eu não tinha grupo. Tentei encaixar em uns que já estavam fechados, não tinha cadeira. Fui na professora e falei: me dá isso aí, eu faço sozinho. Ela quis arrumar um grupo para mim, eu falei que não queria entrar no grupo de ninguém, que eu daria o meu jeito. Quando eu sentei sozinho, alguns caras vieram me ajudar, dar dica. Esses são meus amigos. Os que eu achava que eram amigos e fecharam a cadeira mostraram que eu só era útil. Quando eu fiquei leproso por um momento, sem ter feito nada, eles se afastaram. Isso diz muito.
Vale para a vida pessoal também. Eu canto com a Gabriele aquela do Zeca Pagodinho, quando a gira girou. Dois anos de namoro, de fim de semana, cada um no seu campo. Ela montava mochila comigo, saía para comprar coisa para mim, eu chegava quebrado. Quem estava ali na hora em que a gira girou é o que sobra. Quanto mais útil você fica, mais gente aparece, e mais fácil é se iludir.
A objeção honesta: e quem diz que expor o time ao fracasso quebra o time?
Quebra, se a dose estiver errada. Por isso eu insisto em dano controlado. Estressor que vira veneno na sua vida não é treino, é prejuízo, e vai ensinar exatamente a lição contrária: que perder é insuportável.
E tem a segunda parte, que é o que fazer quando a porrada vem de fora e você não escolheu. Eu tomei um esculacho de graça de alguém que eu nem respeitava para tomar. Estava numa posição vulnerável em relação a quem me atacou, o cara tinha artifícios que eu não tinha. Não consegui pensar em nada racional para fazer, então segurei a posição. Saí de lá e um kanga que estava comigo veio: "essa parada foi injusta, por que você não fez nada?" Adiantava? O instinto mandava brigar, discutir, não deixar passar. Eu não tomei facada, não tomei tiro, estou zerado. Segue.
Isso é o princípio da pedra fria. Quando a pessoa bate e não tem resposta, ela é que fica desconcertada. Doeu, foi injusto, mas não demonstrou. Todo mundo que te provoca, que fica feliz com a tua derrota, está tentando te controlar. Quem acusa o golpe apanha mais. É gatumia, aquela brincadeira no quarto escuro: quem faz barulho é quem se revela, e aí o soco vem em cima.
Tá todo mundo incomodado, mas ninguém demonstra. Esses são os melhores.
Eu não escolho entrar em briga nenhuma, mas não corro de nenhuma. Quando eu comecei este projeto eu sentei e calculei o desgaste antes: alguém de baixo vindo para cima vai apanhar, e a gente nunca sabe de quem. Todo processo grande vai exigir derrota. É por isso que coisas grandes derrubam, e é por isso que a gente respeita quem chega lá. Ninguém respeita o caveira porque todo mundo forma. Respeita porque sabe que aquilo é difícil e são anos de dedicação. Não tem atalho, filho. Quem quer garantia tem que se conformar em ser medíocre.
O que fazer com isso hoje
Escolha uma coisa que você controla, que exponha você um pouco, e fracasse nela hoje. Sem dano. Sinta o incômodo, pegue essa dor e transforme em energia. E depois anote as duas leituras: o que travou em você, e quem apareceu.
Todas as pessoas que tentaram me atrasar foram necessárias para me tornar quem eu sou.
Quando você perde muito feio, cai a capa e cai a vaidade. É como andar pelado na rua confiante: já está pelado mesmo, não tem o que esconder, então agora dá para procurar o caminho de verdade. É aí que a pessoa fica pronta, porque para de perder estratégia com medo do que vão achar.
Para quem decide treinar uma equipe inteira nisso
Ler sobre tolerância à derrota não é o mesmo que instalar tolerância à derrota num time. Texto explica o mecanismo. O que muda comportamento é a dose calibrada, aplicada na frente das pessoas certas, com alguém que já pagou o preço conduzindo.
Se a sua operação está entrando num ciclo em que o erro custa caro e as pessoas estão jogando para não perder em vez de jogar para ganhar, é essa conversa que resolve o que o texto não resolve. Eu levo isso para dentro da empresa nas palestras de Mentalidade Imperturbável, com o que funcionou comigo, não com o que eu li em livro.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.