CADAR. PALESTRAS Solicitar proposta

Mentalidade Imperturbável

Encare suas dores: o dia em que eu entrei numa operação andando porque não conseguia correr

Carreguei uma hérnia de disco dos 19 anos até a mesa de cirurgia. O que aprendi ali sobre limite imposto e limite escolhido serve para qualquer equipe sob pressão.

Era 2017. O Alvarez tinha acabado de se formar e chegado na equipe, com aquela fome de recém-formado, querendo fazer ocorrência. Naquele serviço já tinham sido duas operações, e eu só conseguia fazer uma em boa forma. A segunda eu já fazia mal. Naquele dia a coluna estava aguda, muito aguda mesmo, e eu não tinha remédio comigo.

Então eu reuni a equipe e falei o que ninguém esperava ouvir de mim: "Meu irmão, não vou passar o serviço para ninguém, mas eu não tenho como correr." Mandei o Alvarez para o outro lado, porque ele queria ocorrência. Eu entrei pela rua que eu sabia que era mais chata, todo equipado, andando devagar. Falei com o Anastásio, que tinha sido meu instrutor: "Instrutor, eu vou ter que ir devagar. Não tem condições."

E aí veio a parte que eu não planejei. A gente ouviu tiros do lado por onde o Alvarez tinha entrado, e os caras correram na nossa direção. Eles não sabiam que tinha alguém ali. Como do outro lado a coisa começou rápido, os olheiros fugiram, ninguém avisou. E ninguém avisou porque a nossa patrulha entrou muito devagar. Por minha causa. Deu troca de tiro e a ocorrência caiu no meu colo.

Repara no que aconteceu ali: a limitação que eu estava escondendo virou vantagem tática por acidente. Isso não me deixa orgulhoso. Me deixa incomodado até hoje, porque eu levei uma equipe para dentro de uma rua carregando um problema que eu não tinha resolvido.

A tese: existe limite que o corpo impõe e existe limite que você aceita de terceiros

Existe uma grande diferença entre o que te limita e o que você escolhe te limitar. Essa frase é o eixo de tudo o que eu vou contar aqui.

O limite real chega sozinho. Quando você chega no limite de alguma coisa, filho, ninguém precisa te dizer. Teu corpo diz, a vida diz. O outro limite, o que vem de fora, vem embrulhado em laudo, em opinião, em "não dá". Esse aí eu nunca aceitei, e não aceito.

O erro que eu vejo em quase todo mundo é inverter as duas coisas: aceitar rápido demais o limite que alguém colocou, e ignorar até tarde demais o limite que o corpo estava gritando.

Como eu carreguei uma hérnia de disco por quase duas décadas

Eu tenho hérnia de disco desde muito novo. Moleque muito alto, sempre trabalhei fazendo muita força, pegando peso errado. É um somatório.

A primeira trava foi aos 19 anos, recruta, no curso de fuzileiros navais. Tentei sair da cama e não consegui. Eu dormia na cama de cima. Foi uma agonia para descer, tive que chamar o instrutor, fui para a enfermaria e tomei uma injeção.

Depois disso, a dor virou incômodo permanente e eu fui tocando. Me formei fuzileiro. Banquei os três anos de fuzileiro sem pegar uma dispensa. Passei para oficial da polícia, banquei os três anos de academia e banquei o curso do BOPE. Eu já entrei nesse curso sabendo que tinha hérnia de disco.

Depois do curso, piorou de verdade. Nunca mais consegui dormir na mesma posição: a coluna começa a doer quando fica muito tempo parada, e eu tenho que ficar mudando de lado a noite inteira. Toda vez que eu descuidava do corpo e passava de 100 kg, vinha crise. Eu tomava remédio, misturava, segurava a onda e seguia operando com muito peso nas costas.

Depois daquela ocorrência de 2017 eu emagreci, comecei a fazer jejum, comecei crossfit, que trabalha muito o core, e fiquei um tempo em brancas nuvens. Comecei musculação em 2021, na pandemia, porque não tinha o que treinar e eu precisava dar exemplo de alguma coisa. Voltei a passar de 100 kg, mas dessa vez com músculo, e não me sobrecarregava.

Aí veio dezembro de 2023, um ano muito difícil para mim, de vários desafios. Entrei numa crise aguda muito forte e nada resolvia.

Eu nunca parei minha vida ou deixei uma doença definir quem eu era. Por mais que eu tive doente, eu nunca fui um doente.

Por que ninguém tinha resolvido antes: o problema não era o meu corpo, era a leitura

Eu tentei de tudo, e fui em médico atrás de médico:

  • Quiropraxista
  • Osteopata
  • Alongamento
  • Treinamento de core

O que eu recebi foi receita. Receita, receita, receita. Eu fiz uma coleção de remédio. Eu tinha feito ressonância, e ninguém olhava a imagem. O sujeito olhava o laudo, via hérnia de disco no papel, e prescrevia.

Até que o médico do BOPE, o Fernandes, falou uma coisa que mudou tudo: "Cadar, teu caso é muito específico. Lesão na coluna num cara ativo não é o perfil comum de ter esse tipo de lesão. Tu é um cara forte, tu é um cara carcaça. Provavelmente tu tem alguma coisa mais pesada que a gente não está sabendo." E me mandou para o Dr. Ricardo Meirelles, um dos diretores de coluna do Into, o hospital de trauma e ortopedia do Rio.

Na primeira consulta, ele não olhou o laudo. Ele olhou as imagens. E o diagnóstico foi outro: fratura na coluna, com deslizamento do disco de grau três, numa escala que vai de um a cinco. "Você tem uma fratura. Não tem como o remédio curar teu problema. Como é que você repara uma perna quebrada? Coluna, eu vou ter que fixar ela."

Ele ainda me perguntou: "Meu irmão, tu está aguentando porque tu tem carcaça ou porque tu é resistente à dor? Uma pessoa normal aqui já estava pedindo arrego."

Guarda essa diferença, porque ela é o mecanismo central deste texto: todo mundo estava tratando o sintoma pelo laudo, e ninguém tinha olhado a imagem. Eu passei meses tomando remédio para um problema mecânico. Remédio não solda osso.

seis mesestomando remédio para caramba antes do diagnóstico certo
grau trêsde deslizamento do disco, numa escala que vai de um a cinco
cinco diasdepois da cirurgia eu comecei a caminhar uma hora por dia

O mecanismo que explica por que descansar me fazia pior

Isso aqui é a parte que quase ninguém entende, e eu só entendi quando perguntei ao médico.

A lesão no disco pressiona o nervo ciático, que comunica o resto do corpo. Quanto mais o disco toca o nervo, mais dor.

Por que a musculação me dava alívio? Porque ela fortalecia a parede muscular e aumentava a circulação, irrigando e dando mais sustentação. Por que descansar me prejudicava? Porque sentado no sofá ou deitado na cama a circulação diminui, o músculo relaxa, o disco tenta se mexer e dói para caramba.

Era por isso que eu treinava e não sentia dor, mas acordava de manhã cheio de dor. Sentava no sofá, cheio de dor. Curvar para pegar meu filho, cheio de dor. Brincar no chão com ele era impossível, e mesmo assim eu fazia, porque meu filho é o momento da minha vida que eu sempre quis. Eu fazia e levantava arrebentado.

Repara na lição fora da coluna: o descanso passivo nem sempre é recuperação. Às vezes a carga certa é o que sustenta a estrutura, e o repouso é o que deixa ela desabar.

Ponto de partida único: a lesão no disco pressionando o nervo ciático

Musculação

Fortalece a parede muscular
Aumenta a circulação
Irriga e dá mais sustentação
Menos dor

Descanso no sofá e na cama

A circulação diminui
O músculo relaxa
O disco tenta se mexer
Dói para caramba

Por isso o conselho padrão me piorava: descanso passivo nem sempre é recuperação.

A objeção honesta: não, aguentar calado não é virtude

Aqui é onde eu preciso ser justo comigo mesmo, porque é fácil transformar essa história em elogio da resistência.

Eu não demonstrava. Funcionalmente eu passava batido. No serviço, eu ficava apoiado, meio debruçado, para disfarçar, e quando o chefe cobrava postura eu explicava que ficar muito tempo em pé amassava a coluna. Tirando a minha esposa, que me via ficar pendurado nas coisas de dor, ninguém sabia. Quando eu finalmente falei com o meu chefe, a resposta dele foi imediata: "Irmão, tem que fazer cirurgia, faz, a gente vai dar um jeito." E ele completou: "Eu não sabia que tu tinha esse problema."

Ele não sabia porque eu escondi. Eu trabalho num grupo de confiança, um time pequeno, e se eu saio pesa para alguém. Eu não gosto de ser carga para ninguém. Não ligo de carregar peso dos outros, mas odeio dar peso para alguém. Acho que é por ter vivido a vida inteira carregando minhas coisas sozinho, filho único, eu que cuido da minha mãe, eu que escolho meus negócios. Eu não sei ser dependente, e incomoda muito.

Esse é o custo real e eu não vou maquiar: eu tinha me conformado. Eu já estava falando com o médico que aquela dor era para sempre. E enquanto eu estava conformado, quem pagava a conta comigo era o meu time, que não tinha a informação para se organizar, e a minha esposa, que tirou férias para me ajudar depois da cirurgia.

Não vou ficar demonstrando fraqueza ou pedindo piedade para ninguém, não.

Essa frase é minha e é honesta, mas ela tem um preço, e o preço quem paga é quem está do teu lado. Aguentar calado não é força. Force enquanto for escolha sua. Mas esconder o problema do time é decisão que tira do time a chance de decidir junto.

O que a cirurgia custou e o que ela devolveu

Eu não tenho medo de morrer. Eu tenho medo de cirurgia. Perguntei ao médico se eu tinha chance de ficar sem andar, e ele fez uma piada. Fui assim mesmo.

A cirurgia foi 21 de agosto. Ele abriu, pinçou o disco, trouxe de volta, lixou o disco, botou um calço onde estava desgastado, e fixou com uma placa e quatro parafusos.

E nada na vida do policial é simples. O plano negou. Tive que entrar no INSS para liberar os materiais e tive que pagar o médico do meu bolso, porque o plano se recusou. Dei meu jeito.

A recuperação, ponto a ponto:

  • Dois dias só na cama, sentando para comer com ajuda.
  • Terceiro dia, minha esposa entrou de férias para me ajudar.
  • Cinco dias, comecei a caminhar uma hora por dia.
  • Trinta dias, voltei à musculação, em equipamento estável, nada de balançar.
  • Dois meses, voltei ao trabalho.
  • Janeiro, voltei a correr. Estou correndo 2 km por dia desde então.
  • Este mês, voltei ao jiu-jitsu, de pouco em pouco, porque na coluna fixada o perigo é a torção. Achatar ela até banca. Torcer é o problema, e é o que eu evito até calcificar.

Eu não tomo remédio desde agosto.

E tinha um seguidor com três meses de cirurgia que ainda não estava fazendo atividade, com muito medo. Eu não estou dizendo que ele está errado, cada caso é um caso e cada médico é um médico. Estou dizendo que eu procurei referência de quem tinha ido mais longe: vi um sujeito que em duas semanas estava correndo na areia. Eu não sou maratonista e não gosto de correr, mas com cinco dias eu comecei a caminhar.

O laudo dos meus olhos, e por que eu nunca aceito um "não dá" de primeira

Tem outra história que explica melhor essa cabeça do que a da coluna.

Quando eu entrei para o fuzileiro, descobri que tenho quatro graus no olho esquerdo. Eu nunca tinha feito exame de vista. Fui num médico da rede pública e ele, por não conseguir achar o meu grau, deu um laudo dizendo que a minha vista não tinha recuperação.

Se eu tivesse me conformado com aquele laudo, eu não era nada hoje. Porque foi no fuzileiro que eu abri minha mente.

Eu fui atrás de uma segunda opinião. A médica achou o grau e me deu a receita do óculos. Quatro graus num olho, dois e meio no outro. Para tiro não me atrapalha.

O médico fala na segurança dele, no que é melhor para ele. Isso não é acusação, é como a função dele funciona. Mas quem sabe da tua vida é você, e a consequência não é dele. Se der errado da coluna quebrada, quem paga sou eu. Se der errado de eu ter uma vida medíocre, quem paga também sou eu. As duas contas são minhas. Então quem decide sou eu.

Eles falam sobre a média, filho. Eu não sou a média.

Quem disse que esse é o limite? Quem disse te conhece?

Tem a frase do avô do Alvarez. Quando descobriram o câncer, deram seis meses de vida para ele. Ele respondeu que seis meses é para uma pessoa comum, e que ele não era comum. Viveu mais dez anos e morreu de outro problema, que não tinha nada a ver com câncer.

Se tu entregar a cabeça, filho, o corpo vai junto. Tudo começa na mente.

O que fazer com isso, em quem lidera equipe

Traduzindo para o que você faz amanhã, sem romantizar dor:

  1. Separe os dois limites por escrito. O que é limite físico ou material real, verificado, e o que é limite que alguém te disse. Trate os dois de forma diferente.
  2. Não trate laudo, trate imagem. Todo médico que olhou só o meu laudo prescreveu remédio. O que resolveu foi o que olhou a imagem. Em gestão é igual: relatório resumido não é o problema, é a leitura de alguém sobre o problema.
  3. Peça a segunda opinião antes de aceitar o "não dá". Uma opinião negativa não é o fim de nada. É uma opinião.
  4. Avise o seu time antes do colapso. Aqui eu errei. Esconder por não querer pesar tirou do meu chefe e da minha equipe a chance de se organizar. Quando eu falei, a resposta foi "a gente vai dar um jeito".
  5. Quando o limite real chegar, encare de frente e imediatamente. Ninguém precisa te avisar. Você sabe. E encarar devolve, ponto a ponto, o que a dor estava tirando.

Não fique sofrendo por antecedência. Não fique desistindo sem tentar.

E se me perguntar se valeu a pena tudo isso para acabar com a coluna fixada: filho, foi barato. Só uma cirurgia para ser caveira, só uma cirurgia para ser oficial, só uma cirurgia para ser fuzileiro. Olha tudo que eu posso dar para o meu filho, para a minha esposa e para a minha mãe. Tá barato.

Ler sobre isso não é a mesma coisa que instalar isso numa equipe

Um artigo mostra o mecanismo. Ele não muda a cultura de um time que aprendeu a esconder o problema até virar crise, e é exatamente isso que faz uma operação quebrar sem aviso.

Se a sua empresa está entrando num ciclo em que as pessoas seguram informação para não parecer fracas, em que aguentar calado virou virtude e o erro só aparece quando já custou caro, é aí que eu entro. Eu levo a vivência de operação real para dentro da sua equipe, com caso concreto, e trabalho os três temas que sustentam isso: liderança em crise, mentalidade imperturbável e cultura de alta performance.

Se fizer sentido para o seu evento, me chame e a gente conversa sobre o formato e a data.

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Medo e covardia nunca salvaram ninguém.

As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.