Mentalidade Imperturbável
Só pode sossegar quem vence a arrebentação: o que o mar ensina sobre parar cedo demais
Major Ronald Cadar usa as regras do mar que aprendeu com o pai para explicar por que equipe e pessoa quebram no meio do problema, e o que fazer antes de entrar, durante a travessia e na hora de escolher a onda.
Eu tinha uns dez anos, estava numa praia em Saquarema com meu pai, e a gente entrou pelo banco de areia. Banco de areia é confortável, dá pé, você acredita nele. Aí bateu uma calha, e subiu uma onda muito alta. Eu vi a parede subindo, o pessoal em volta gritando, e fiz a coisa mais natural do mundo: virei de costas para sair correndo.
Não deu tempo de errar até o fim. Saiu uma mão de dentro da onda, me pegou pela sunga e me puxou para dentro dela. Era meu pai. Depois ele me parou e falou: nunca dê as costas para a onda, nunca dê as costas para o problema.
Esse vídeo inteiro nasceu daquela frase. E a lição que eu quero te entregar hoje é a irmã dela, a que quebra mais gente adulta do que a primeira: você só pode parar depois de vencer a arrebentação. Parar no meio, achando que já está bom, é onde a maioria se ferra.
Por que o mar quebra quem tem técnica: o terreno não é estável
O que mata na água não é a água. É o terror. Eu diria que 99% é o terror, e 1% é aquela condição de mar e de oceano em que não tem o que fazer.
E o terror vem de uma coisa específica: a gente é acostumado com estabilidade. Você vive querendo controlar o resultado, saber tudo antes, dominar da agulha ao foguete para só depois se testar. Aí não tem teste, entendeu?
A água é um terreno não controlável. Não dá pé, não tem borda, não tem o que segurar, não tem onde parar. Só depende de você para não morrer. Isso invade a cabeça da maioria das pessoas.
Ele não tem estabilidade, mas ele tem sincronia.
Repara na diferença, porque ela é a chave do artigo todo. Instável não é aleatório. O mar não te dá chão, mas ele tem padrão: todo sentido de água que entra tem um sentido de água que volta; toda onda tem série e intervalo; toda arrebentação tem um lugar onde acaba. Quem lê o padrão atravessa. Quem confia na estabilidade que não existe perde o equilíbrio na primeira corrente forte, e aí começa a pavor, começa o desespero.
O que o curso está testando quando te enfia doze horas na água
No COESP a água é o filtro mais duro, e nego sempre quer tirar essa fase, alegando que ninguém faz operação dentro d'água.
A água de Ribeirão, dependendo da época do ano, fica muito próxima disso, e no meu turno a maior parte da galera teve hipotermia. E aqui aparece o mecanismo que interessa a qualquer gestor: a hipotermia se agrava quando o teu cortisol sobe. O medo levanta o cortisol, o cortisol derruba a imunidade, o frio te sacrifica mais, e você consome tuas reservas muito rápido. Quando acaba o glicogênio, arrebentou.
Por isso a resposta para quem quer tirar a água do curso é simples. O COESP não é um curso para te treinar habilidade, filho. Ele é um curso para testar se você tem capacidade e resiliência de sobreviver aos mais diferentes desafios. Se o cara entrega o controle numa habilidade treinável, num terreno teoricamente controlado, o que dirá na troca de tiro.
E eu não vou vender que ali é só medo. Já tivemos falecimentos na parte de água. Às vezes o aluno está esgotado e não quer desistir, e a água consome muita energia. Uma fração de distração, e a gente perde o aluno, porque ali tem 50 metros de profundidade. Eu entendo esse aluno, porque eu fui o aluno que ia entregar tudo e não aceitaria desistir só porque estava acabado. Eu ficaria até morrer.
As três etapas, na ordem, e o erro é sempre pular a primeira
Meu pai nunca entrava afobado. Afobação demais arrebenta combatente.
Meu pai chegava na praia e sentava. Ficava olhando o mar antes de entrar. Ele observava quem já estava dentro, o padrão da corrente, para onde aquilo puxa.
É exatamente o que você faz antes de entrar num projeto. Quem já está dentro? Como está tocando isso? Se é rio, joga uma folha na água e vê para onde ela anda. Se ela não foi para lugar nenhum, não tem corrente. Se andou, é para lá que a corrente puxa.
Depois você olha a série. As ondas vêm em sequência e em quantidade: essa série tem seis ondas, um, dois, três, quatro, cinco, seis, intervalo, a maré está voltando, espera e começa de novo. Todo mar tem sequência. Todo desafio tem a sequência de porrada dele, do mesmo jeito que na arena o cara entra dando soco no striking para depois te levar para o chão no grappling. Você já entra preparado para as duas.
E aí você olha onde acaba a arrebentação, porque é ali que os surfistas estão posicionados. Traduzindo para concurso público: o cara só para depois de formar no curso de formação. Ele precisa olhar, dentro daquela profissão, onde os caras estabilizaram, para saber até onde vai ter que nadar forte e sob pressão antes de poder escolher a onda dele.
E tem a regra que resolve o resto: quando você não tem disposição de lutar, fica na areia batendo palma. O mar não tem pena. Ele não é bom nem ruim, ele é o que é. Botou o pé na arena, tem que lutar.
Parar no meio da arrebentação é pior do que não ter entrado
Na travessia não existe negociar. Você entrou, e daqui até onde a arrebentação acaba é luta. Se você para no meio porque achou que já estava bom, você fica exatamente no pior lugar do mar: sem embalo, sem posição, no ponto onde a série bate.
E é uma escada de consumo. Quanto mais forte a onda, mais fundo você tem que mergulhar para quebrar a corrente dela, e mais oxigênio você gasta. Quando você volta, já vem outra, e agora você tem menos oxigênio que na anterior. Fica nesse ciclo, meu irmão, e uma hora você toma o caldo com o tanque vazio.
Repara que existem dois tipos de caldo, e eles não valem a mesma coisa. Tem o caldo de quem não teve força para atravessar a corrente de cara: tentou, fez o certo, faltou força, banca esse caldinho. E tem o caldo de quem fugiu, que é o doído, porque a onda começa batendo na cabeça, te enterra no chão, e no banco de areia não tem água para te proteger. Você rala na areia e sai moído, com o rosto marcado.
Traduzindo para a sua vida: você só para quando vencer tudo. Atravessou toda a tua zona de necessidade, pirâmide de Maslow, urgência, necessidade, e chegou no bom de ser feito. Não tem mais risco para você, para a tua família, para ninguém. Agora é permitido descansar.
A objeção honesta: e quem diz que agora tem família?
Essa é a desculpa que eu mais escuto, e ela merece resposta direta. Todo mundo no BOPE tem família, e ninguém mete esse caô. Os melhores combatentes estão ali e todos eles têm família. Se o cara não metia essa desculpa antes, não é agora que ela vale.
Então não vem usar família como escudo da tua covardia.
Isso não é dureza gratuita, é intencionalidade. Na hora que você entra na arena, só importa a arena. Eu fui o primeiro a sair para trocar tiro num casamento que invadiram, e meu filho tinha acabado de nascer. Naquela hora aquilo não importa. Pode parecer egoísta, mas se você não fizer isso, você morre. E não adianta ficar num terreno que vale a vida pensando em coisa de fora, porque se você perder ali, acabou, e você não vai resolver nada lá fora mesmo.
Em combate a minha estratégia é o ponto que eu preciso alcançar, mas a tática é a cada troca de tiro. Cheguei aqui, tem um abrigo ali, tenho que dar um tiro de vinte metros, eu consigo, vou. Chegou, olhou o terreno, fatiou, limpou. Só penso até o próximo abrigo.
O que fazer depois da arrebentação, quando enfim é a sua onda
Passou a arrebentação, agora você escolhe. E escolher tem três regras.
- Cuidado com buraco. Onda que nasce em buraco não tem rampa de descida, e a tua braçada não te tira dela. Você cai, e o caldo é grande. Na vida, buraco é qualquer sucesso imediato. Se os caras que são milionários e dominam dinheiro não entraram naquilo, por que você acha que você tem uma informação privilegiada que esses caras não têm?
- Não pega leve no começo. Gráfico de sucesso e tempo é curva. Quanto mais leve você pega no início, mais demora a subir. Eu dei muito gás no começo da minha carreira, fiz o curso mais difícil, fiz ocorrência à beça, e é por aquilo que meu nome é lembrado até hoje. A primeira impressão demora muito para ser alterada. Pressão altera tempo, e intenção altera tempo.
- Quem chegou primeiro tem prioridade. Olhou a onda e já tem um cara nela? Espera. Tem muita onda nesse jogo. Furar a onda dos outros é feião, e é nítido: é o sujeito que não conseguiu escolher e resolveu copiar quem escolheu.
Acreditar na sorte é um azar, filho.
E a razão pela qual a segunda onda é fácil é a mesma pela qual a primeira é cara. A primeira vez que você chega na arrebentação dá o maior trabalho, você pode levar trinta minutos. Depois disso você já sabe a corrente de entrada, a pressão da onda e a sequência da série. Depois é cíclico.
É por isso que eu não tenho medo de perder nada. Ninguém me deu nada, tudo que eu tenho eu conquistei. Se eu conquistei, eu sei o caminho. Se me tirarem, eu conquisto de novo, e vai ser mais rápido, porque eu não vou perder tempo procurando o caminho. Eu me livro do meu medo porque eu aceitei o caminho da coragem.
A ferramenta que serve na segunda-feira: o pulmão é uma boia
Essa é a parte que você aplica hoje, sem praia nenhuma.
Teu pulmão é uma boia. Pega uma garrafa PET: cheia, ela boia; vazia, ela afunda. Você é a mesma coisa. Quem puxa muito ar sobe demais, quem solta todo o ar porque está apavorado afunda, e afundar aumenta o pavor. Aí entra a regra das três subidas: você sobe descontrolado três vezes, e na quarta apaga, porque não deu tempo de recuperar.
A correção é uma só, e é ridiculamente simples de descrever e difícil de executar: respiração serena, pulmão meio cheio e meio vazio, para que ele não precise oscilar. Você estabiliza ali.
O mecanismo por trás é o mesmo do frio no curso. O cara apavorado sobe o cortisol, o cortisol acelera o batimento cardíaco e a respiração, e o consumo dispara. Quem controla a respiração não deixa esse ciclo começar. A respiração controla o cortisol, esse é o grande segredo. A meditação ensina a controlar a respiração, só que ela não te ensina sob alta pressão; quem consegue levar isso para dentro da pressão não descontrola.
Funciona em escala pequena e em escala grande. Meu filho de três anos começa a chorar, eu falo "acabou, respira", respiro junto com ele pelo nariz e solto pela boca, e só de controlar a respiração ele para de chorar. O mesmo mecanismo segura um adulto de quarenta anos em terror.
E eu não estou vendendo blindagem. Quando chega no combate perto de morrer, é natural que eu também saia do controle. A diferença é perceber que está saindo e voltar pela respiração, para ficar num nível aceitável em que você não perde o comando.
Duas notas que vêm junto e que valem para liderança:
- Nunca faça sozinho o treinamento que pode te matar. Apneia sozinho, nem na piscina de casa. Tem que ter alguém tomando conta do relógio. Isso é humildade, e humildade aqui é procedimento.
- Só salva quem se garantiu primeiro. Eu vi o vídeo de um cara se afogando: o cortisol tinha subido tanto que neutralizou o córtex, ele não respondia mais ao que falavam. Um cara que não nadava bem pulou para salvar. Morreram os dois. O limite da ajuda é o que me sobra. Eu não posso tirar do meu barco para botar no barco de alguém, senão o meu afunda.
Se a sua equipe está parando no meio da arrebentação
Se você é quem contrata treinamento, repara em qual dos três degraus a sua equipe trava. Se ela entra afobada em projeto sem olhar quem já está dentro, o problema é leitura de terreno. Se ela para de remar quando o resultado ainda não estabilizou, o problema é resistência na arrebentação. Se ela some no primeiro susto e escolhe onda buraco atrás de sucesso rápido, o problema é controle sob pressão, e controle sob pressão começa na respiração.
Um artigo mostra o mecanismo, mas ele não coloca a sua liderança dentro da água. É isso que eu levo para dentro de empresa: leitura de terreno antes de entrar, travessia sem parar no meio e controle de cortisol quando a informação falha.
Solicite uma proposta de palestra e me diga em uma linha onde a sua equipe está parando. Eu respondo com o formato e o escopo que fazem sentido para esse terreno.
Eu mesmo ainda estou tentando vencer a minha arrebentação. Mas é aquele gás que a gente tem que dar no começo, senão a gente não ganha essa onda. Entrou no mar, tem que nadar. E é só o começo.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.