CADAR. PALESTRAS Solicitar proposta

Mentalidade Imperturbável

Aprenda com a dor: por que quase todo problema que trava a sua equipe é inventado

Uma seguidora me disse que estava estudando com medo de reprovar de novo. Ela tinha feito metade certo. A outra metade é a diferença entre dor real e sofrimento inventado, e ela decide quem cresce.

Era três e pouco da manhã. Eu estava com insônia e falei: quer saber, eu vou levantar, já vou fazer as tarefas que eu tenho que fazer, otimizar meu tempo. A vontade era continuar na cama enrolando. Era, sim. Mas eu posso aproveitar melhor meu dia.

Levantei porque naquele fim de semana uma seguidora tinha me trazido um problema que é comum em muitos de vocês. Ela falou assim: eu tive minha primeira reprovação e sofri muito com isso. Não quero passar por isso de novo. Então estou estudando muito, mas estou com muito medo disso acontecer.

Repara no que ela fez. Ela pegou a dor que sentiu, botou em raiva e está dando gás no estudo. Isso é ótimo. Ela fez 50%. A outra metade, a que ninguém ensina, é a que decide tudo: ela está com medo de voltar para a dor, e esse medo é que vai travar ela.

A tese: não é a derrota que para você, é o medo dela

A gente quando olha para um desafio não tem que temer a derrota. A gente tem que temer ser fraco.

Perder você vai. Se eu entro num campeonato e ganho, esse campeonato é fácil, ele não me acrescentou nada. É na derrota que eu aprendo. Se eu me ponho no desafio e ganho, está fácil, não estou aprendendo nada. Agora me põe no desafio e eu perco: calma aí, eu errei aqui, então isso eu preciso melhorar.

Hoje você olha o cara forte e nem sabe que ele perdeu. Você lembra de alguma derrota dos caras que você admira? Não lembra, porque a porrada de vitória apaga. Mas os caras que você olha e acha fortes, no processo tiveram que falhar, tiveram que errar. E é importante que isso aconteça, senão você não cresce, filho.

O medo da dor, filho, faz homens bons virarem covardes. Faz pessoas com potencial de grandeza virarem medíocres.

O mecanismo: a roda da vida e o ponto exato onde ela congela

Existem quatro sentimentos básicos. Alegria, que gera satisfação e é o objetivo de todo mundo. Ira, que gera energia. Tristeza, que gera dor. E medo, que tenta te preservar da dor.

A sua vida deveria funcionar assim: você tem uma tristeza que concentra a sua dor, você passa essa concentração para a ira, para ela gastar e te libertar daquilo que te aflige, você vence a barreira e ganha satisfação. Aí você não quer mais perder a satisfação e tem medo de voltar para a dor. O medo entra em ação para tentar te controlar e te proteger.

Só que você não pode parar no medo. Você tem que fazer essa roda girar de novo. Cada vez que ela dá uma volta, alguma coisa de consciência você desenvolveu.

Quando a pessoa cria um trauma, ela congela a roda da vida dela. Fica sempre evitando qualquer desafio que leve ela para a dor, tentando controlar a vida para nunca ter o risco de sentir aquilo de novo. Isso é um grande erro, filho.

Roda girando

Tristeza concentra a dor
A dor vira ira, e ira é energia
A energia quebra a barreira
Vem a satisfação
Vem o medo de perder ela
Você encara o medo e gira de novo

Roda congelada

Tristeza concentra a dor
A dor vira trauma
Você evita todo desafio que leve até ela
Tenta controlar a vida inteira
Para no medo
Nenhuma volta, nenhuma consciência nova

Por isso tem gente nova com consciência boa e gente velha sem maturidade: um não parou a roda, o outro parou.

É por isso que às vezes você fala: pô, fulano é novo, mas tem uma consciência muito boa, parece que ele é mais inteligente. Não. Ele não parou a roda da vida dele.

Dor real e sofrimento inventado: aprenda a separar antes de qualquer coisa

Sofrer não é dor. Sofrer é uma opção imaginativa de um cenário possível que você quer antecipar.

O problema real é inegável. Eu te dou um soco no estômago, não tem como negar que está doendo. Toda vez que você estiver diante de uma dor verdadeira, ela sobrepõe tudo aquilo que você criou ou inventou para sofrer. Meu filho ficou doente: isso é dor verdadeira. Eu posso ter mil problemas no meu dia, problema na obra, problema na internet, problema no quartel, problema com colega de trabalho. Eu só tenho um problema.

Já o inventado é aquele que você alimenta. O ser humano tem uma taxa de criar 33% de realidade negativa em tudo que ele faz, se ele não tiver consciência. Você fica falando que o seu emprego é uma porcaria, aí você é demitido e pensa: meu Deus, o que eu faço sem esse emprego. Mas você não estava reclamando dele? Reclamei por reclamar. Sou viciado em reclamar. E a maioria das pessoas é assim.

E aqui está a parte que quase ninguém percebe: problemas criados são inventados, logo estão no mundo da imaginação, logo não têm solução. Por isso vocês entram em crise. Não é que o problema é difícil. É que ele não existe, e coisa que não existe não se resolve. Se você parar de inventar essas coisas na cabeça e parar de querer se vitimizar, você diminui o seu problema de ansiedade.

4sentimentos básicos: alegria, ira, tristeza e medo
4causas de dor: escassez, decepção, violência e vergonha
7grandes medos, todos nascidos dessas quatro causas

Eu já dei esporro em moleque por causa disso. Um garoto me falou que estava em luto porque um amigo tinha morrido, que esse mundo é muito cruel, que ele não conseguia se relacionar porque as pessoas não respeitavam o luto dele. Eu achei que tinha sido ontem. Perguntei quando. Dezembro. Falei na moral: você está usando o corpo de um moleque que partiu como escudo. Respeita o problema dos outros, tem um pai e uma mãe aí sofrendo de verdade com isso.

Eu perdi meu pai. Uma semana depois eu tinha que estar trabalhando, e estava bem. Você acha que meu pai ia querer que eu acabasse com a minha vida porque ele morreu?

Por que a dor real funciona: ela concentra, ela energiza, ela adapta

Ela concentra. Toda vez que uma coisa dói de verdade, o seu corpo concentra tudo nela. Você nem sentiria dor se não tivesse sistema imunológico: é ele que informa. Imagina você com dor de barriga 3 milhões de anos atrás. Chega um tigre. O que vai te matar mais rápido? Seu corpo é inteligente para caramba: suspende o sistema imunológico, corta as respostas de incômodo, dessensibiliza para a dor, para você poder se defender e correr. O cortisol sobe. Por isso o pai doente que estava caído na cama levanta bravo quando o moleque derruba um prato, e você jura que ele não estava doente.

Ela energiza. Em fevereiro eu quebrei de tudo. Investi todo o meu dinheiro numa obra e emprestei para amigos que não me pagaram, então faltou dinheiro para a obra. Tive problema de saúde. Eu tinha dois carros: botei um para vender e o outro quebrou. Peguei um usado e ele quebrou também. Pela primeira vez na vida eu não tinha dinheiro para terminar o mês, e eu sempre fui um maluco comedido, sempre guardei, nunca botei a gratificação do BOPE no meu orçamento para nunca ficar refém de dinheiro. Quando o estado quebrou em 2016, não faltou nada na minha casa: eu tinha três salários guardados.

E o que aconteceu quando bateu? Minha cabeça ficou toda concentrada em como terminar o mês. Quando a dor bate forte com os teus valores, com as coisas em que você realmente acredita, você ganha energia que nem sabia que existia. Quando minha mãe teve um problema de saúde, eu fiquei praticamente uma semana sem dormir. Chegava duas da manhã, dormia, cinco da manhã levantava porque podia estar fazendo alguma coisa. Sou filho único. Minha mãe fez um só e esse vai dar conta.

Ela adapta. Diante da dor o cérebro começa a se adaptar, pela neuroplasticidade. É por isso que quem passa por uma experiência de quase morte para de fumar, para de beber, volta para a igreja, refaz a vida: é uma carga tão grande de estresse que modifica o cérebro. A dor certa altera tudo, filho. Mas ela só chega na sua crença se você aprender uma lição com aquilo.

Eu reconfigurei várias crenças minhas porque doeu. Eu olhei as cartas na mão e falei: essas cartas aqui não são necessárias, eu só preciso dessa. Gastei dinheiro onde não precisava, investi tempo no que não devia, fui egoísta, fui vaidoso. Tudo isso é bobeira.

A dor filtra, e é por isso que ela é a única avaliação honesta de um time

Na felicidade todo mundo é igual. Agora põe só um prato de comida para dez, e vê o que sobra de lealdade, o que sobra de amizade.

Quando vem a dor, só sobra o que não for negociável. A dor põe as cartas na mesa e você só pode segurar uma na mão, o resto tem que jogar fora. Os seus valores que você não negocia são os únicos que você segura.

Por isso o curso do BOPE mostra quem é quem. Quem é atento percebeu: quando ficou terror, botou o amigo na frente, pegou o fuzil do outro quando o dele sumiu, brigou na hora da comida, entregou o colega. A gente vê isso tudo, porque na escassez você mostra quem é.

Na felicidade todo mundo é igual. Coma cheia, filho. Coma cheia. Todo mundo é maneiro.

Quando eu comecei na rede social eu comecei a tomar porrada, e vieram muitas decepções. Pessoas que eu considerava e defendia aproveitaram que eu estava num momento exposto para bater. Falei com o Alvarez: é bom que isso aconteça para eu saber quem é quem, porque um dia a roda gira e eu preciso saber quem foi leal de verdade e quem bateu palma para quem estava me atacando.

Não fica tentando arrumar desculpa para justificar. É preto no branco: não ajudou, já mostrou quem é. É um ótimo amigo para beber, é um ótimo amigo para contar história, mas não é o amigo de que você precisa.

A objeção honesta: então é para romantizar sofrimento?

Não. E eu quero ser bem claro aqui, porque essa confusão estraga tudo.

A dor é um professor cruel, escroto, ignorante. Ela magoa. Ela não tem pena. Ela é necessária, mas ela é péssima companhia, e quem diz que gosta de sofrer está mentindo ou está se martirizando.

Também não é qualquer dor que ensina. A dor inventada não ensina nada, porque não tem solução. E a dor real só vira lição se você for inteligente com ela: vê o que ela está causando, por que causou aquilo, como você melhora esse processo. Sem isso, você passa pela dor e sai só com medo, igual cachorro que apanhou e se encolhe toda vez que alguém mexe na vassoura.

Eu também não estou dizendo que atalho resolve. Atalho não faz crescer. Todo processo de crescimento decente vai exigir se acostumar com as derrotas.

E tem um custo que eu pago até hoje e não escondo: eu não sou moleque inteligente. Eu sou aquele moleque que teve que passar pela porrada para aprender. Se eu não tivesse passado pelas dores que eu passei, eu não teria me tornado quem eu sou, e isso é fato. É exatamente por isso que eu estou aqui trocando ideia com vocês: para vocês não terem que passar por uma porrada de coisa que não precisava.

O que fazer com isso na sua equipe, na segunda-feira

  1. Separe dor real de sofrimento inventado, item por item. Peça a lista de problemas do time e classifique cada linha. O real é inegável e tem dono. O inventado é antecipação de cenário. Só o primeiro merece reunião.
  2. Pare de proteger a equipe da derrota. Se o desafio que você dá é sempre ganho, ele não está ensinando nada a ninguém. Desafio que sempre dá certo é desafio fácil.
  3. Trate a crise como avaliação de pessoas, e anote. Quem segurou, quem soltou, quem pegou o crédito do outro, quem brigou por recurso. Na fartura você não descobre isso.
  4. Depois de cada perda, force a lição antes do próximo round. Perdi e levanto só funciona com a pergunta no meio: onde exatamente eu errei e qual processo eu mudo. Sem isso é só repetição.
  5. Meça o medo, não o erro. Se as pessoas param de tentar, o problema já não é o erro delas. É o medo que você deixou instalar.

Só é livre quem pode fazer o que não quer fazer. Quem só faz o que quer é escravo.

E um dia, filho, de tanto a gente perder, vai ser impossível a gente não ganhar.

Isso é fácil de entender e difícil de instalar numa cultura

Ler sobre isso leva oito minutos. Mudar um time que aprendeu a esconder erro, a evitar todo desafio incerto e a chamar de crise um problema que ninguém consegue apontar leva bem mais, e não acontece por circular um texto no grupo.

Se a sua empresa está nesse ponto, em que as pessoas ficam paralisadas por cenários que ainda não aconteceram, em que a derrota virou tabu e ninguém consegue mais separar o problema real do inventado, é aí que eu entro. Eu levo a mentalidade de operações especiais para dentro da sua equipe, com caso concreto, nos três temas que sustentam isso: liderança em crise, mentalidade imperturbável e cultura de alta performance.

Se fizer sentido para o seu evento, me chame e a gente conversa sobre formato e data.

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Não tenha medo dos desafios. Tenha medo de ser fraco.

As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.