Mentalidade Imperturbável
Por que você não consegue ter constância: o problema é onde você ancorou a recompensa
Major Cadar explica por que times e pessoas oscilam entre picos e quedas: a recompensa está ancorada em algo que ninguém controla. E o que muda quando o foco vira para dentro.
Quando eu formei, filho, eu montei o meu kit polícia. Coturno de R$ 180, que na época valia quase metade do meu salário. Joelheira, colete, coldre na perna, bornal do outro lado para botar granada, óculos escuro. Eu parecia o Robocop. E por mais de uma vez eu me embolei todo com essa porrada de equipamento.
Repara no que aquele kit era de verdade: não era proteção, era plateia. Cada peça estava ali porque alguém ia olhar. O coturno de marca era pesado, e quando chovia ele triplicava de peso e me deixava lento. O coldre na perna e o bornal reduziam a velocidade da minha pernada. Em combate, ou você está protegido ou você está rápido, é o que te faz sobreviver.
Foi um tiro que me ensinou isso. Fui para uma operação com um Major novo. Quando ele passou, ninguém atirou. Eu era o 02. Quando eu passei atrás dele, nego me salpicou. Meio segundo parecia uma vida, e a minha pernada dando, o tiro quase me pegando. Ali eu percebi que todo aquele equipamento era desnecessário.
A tese: inconstância não é falta de disciplina, é endereço errado de recompensa
Você acerta, fica feliz, acredita que o mundo vai te entregar o arco-íris. Aí uma coisa não sai como o esperado e você já quer abandonar. No longo prazo você percebe que não consegue ter constância, não consegue ter compromisso, não consegue ter disciplina, e não sabe por quê.
Você não veio com defeito. Isso acontece com todo mundo. E tem uma explicação: existem dois tipos de foco, e o teu está no lugar errado. Foco é onde você coloca o seu centro, é de onde vêm as suas recompensas. O estoicismo chama isso de dicotomia do controle. Quem tem foco externo vive na inconstância, dependendo sempre que o externo se alinhe para poder ter os resultados que gostaria.
"A pessoa que depende daquilo que não controla não é um bom estrategista, não vai ser um bom general, vai quebrar no processo, vai ter vitórias absurdas e quedas devastadoras."
Como funciona o foco externo, passo a passo
No foco externo você coloca os seus objetivos, a sua finalidade e a sua recompensa em algo de fora. Passar no concurso, ganhar, ser o melhor na luta, ser respeitado. E quase sempre tem um objetivo escondido atrás do objetivo: você quer ganhar não porque quer ganhar, mas porque ao ganhar você ganha respeito, ao ganhar você prova algo.
Quando dá certo, é ótimo. Mas é montanha russa: do mesmo jeito que você está lá em cima, você vai embora.
E o problema não é só depender de variável. É que a conta não fecha:
- Você estima que ao ganhar as pessoas vão te respeitar.
- Vai ter vez que você ganha e o respeito não vem.
- Aí a sua mente entra em conflito, porque não tem coerência. Fiz A para ter B, fiz A e veio C.
- A conclusão que sobra é "mundo injusto, na minha vez não deu".
E tem um detalhe que quase ninguém enxerga: as expectativas só cumprem a missão delas quando a temperatura e a pressão estão na média. Quando estão nos extremos, as expectativas não cumprem as mesmas regras. No trabalho, você era para ser o cara que faz e é recompensado, mas você já entrou numa zona de estresse com diversas pessoas, e ao ter aquela recompensa as pessoas se sabotam. A regra não se cumpre para você. Quem joga nos extremos vai jogar no caos, vai jogar onde a regra não se aplica.
Foco externo
Foco interno
Os dois focos diante da mesma adversidade. A diferença não é esforço, é onde está a âncora.
Por que isso destrói projeto de longo prazo, e não a tarefa de hoje
O foco externo é muito variável. Ele não tem constância. E você se apoiando nele, ora sobe, ora desce.
O estrago aparece no prazo longo. Jogos duradouros exigem frustração, exigem caos, exigem desafio. E esses desafios não cumprem as expectativas: eles te quebram. Ou você não vai conseguir cumprir todas as expectativas, ou você vai ter que jogar só em jogo fácil.
Tem um mecanismo fisiológico embaixo disso, e ele não é frescura. Recompensa é um regulador do seu cortisol. Ao ter recompensa você abaixa o cortisol, que é o que te deixa pilhado. Você acalma o coração, abranda a raiva, fica mais pacífico e racional. Quando não tem, é o inverso: pilhado, estressado, no limite. E aí a cabeça faz a dedução mais simples que existe: quanto mais a gente faz isso, mais a gente chega no limite, então melhor parar.
É por isso que você quer desistir, quer abandonar, quer meter o pé. Não é preguiça. É a sua própria cabeça fazendo uma conta correta a partir de um endereço errado de recompensa.
O que Musashi entendeu que os adversários dele não entenderam
Tem uma luta em que ele atrasa três horas contra o melhor espadachim do Japão. O cara fica puto, acha um absurdo, e quando Musashi chega já chega dizendo que o outro perdeu. Aí, quando o cara vai puxar a espada, ele leva uma madeirada pontuda que Musashi vinha afiando, na garganta.
Musashi não era necessariamente o melhor espadachim. Ele sabia lidar muito bem com a mente dele e usava a mente dos outros como estratégia de combate. Ele olhava só o que importava, e percebia que as pessoas se importavam com o que não ajudava na hora do combate: o horário, a vestimenta, as formalidades, o que iam achar dela. Então ele ofendia, atrasava, se vestia igual a um mendigo, usava as armas para desmerecer o outro. Porque o foco dos adversários dele era externo.
Ele não se importava em parecer maneiro, não se importava em parecer formal, não se importava com os rituais. Só se importava em fazer a melhor luta que ele podia para vencer. E focava tudo no momento presente. A psicologia chama isso de estado de flow, e só entra em flow quem está presente. Se o teu foco está no que vão achar de você, se você está lutando e prestando atenção se te elogiaram, se aquela luta faz bem ou mal para a sua fama, você não está presente.
A objeção honesta: "isso não é ser passivo?"
É a pergunta certa, e eu ouço ela sempre. Ah, mas assim você fica muito passivo.
Não. Eu só não viro escravo dos ambientes.
Se tem coisa para fazer, ou se eu acho que é certo fazer, eu por escolha faço. Mas eu não sou dependente disso. O cara me desrespeitou, eu não me abalo. Agora, se eu não resolver aquele desrespeito agora, ele vai crescer e vai me dar um problema maior. Então ali eu corto: irmão, não estou brincando contigo, eu não te dou essa intimidade. Estou pensando no que é melhor para o meu plano, para os meus objetivos, para não me atrapalhar. Mas me incomodar, não me incomodou.
Tem a passagem do mestre que é xingado na frente da cidade e não se mexe. Depois os alunos vêm reclamar do desrespeito, e ele responde: o que eu sou, eu deixei de ser? Não. O que ele falou é verdade? Não. Reputação ele mexeu, honra não. A minha honra está intacta. E aí ele dá a analogia: se eu te dou um presente e você aceita, o presente é seu. Se você não aceita, ele continua na minha mão. Foi isso que aconteceu. Ele tentou me tirar do centro, eu não entrei no jogo dele, então o problema continua com ele.
Isso não é passividade. É escolha de onde a decisão nasce.
O custo: eu aprendi isso pela dor, e a dor não é currículo
Eu não vou vender isso como uma técnica bonita, porque a minha escola foi a pior.
Eu era o mais pobre de todas as pessoas que eu conhecia. Na minha geladeira só tinha água e às vezes uma cebola. A minha compra não era do mês, era diária: compra duas batatas, hoje é batata e ovo, o arroz dura tantos dias. Às vezes eu ia no mercado pedir fiado, meu pai depois acerta. Meu pai não conseguia acertar, eu ficava com a dívida e tinha que voltar lá e pedir de novo.
Era normal chegar em casa e não ter luz. Era normal chegar em casa e ver meu pai bêbado, caído no chão. Uma vez eu cheguei e vi um corpo pendurado no cavalo, só pela perna. O cavalo trouxe meu pai para casa. Meu cavalo era arisco, mas gostava do meu pai, e por isso não pulou.
E uma coisa foi decisiva: meus pais não faziam drama pela nossa situação na minha frente. Era o que tinha, e era sempre pensando em solução. Bora desenrolar o que dá para desenrolar. Eles deviam ter os dramas deles, eu tenho certeza que tinham, mas estava tudo guardado.
Aquilo tudo me tirou qualquer possibilidade de recompensa externa. E aí me obrigou a olhar para dentro e achar formas de eu mesmo me recompensar.
"Eu aprendi a olhar para dentro porque tudo de fora me foi tirado."
Tempestade é boa para quebrar o foco externo porque a tempestade vai te tirando tudo. Se você quiser continuar, vai ter que ir abandonando. É o barco pesado demais na tempestade, é o avião perdendo força: joga tudo fora, fica só o necessário. Foi exatamente o que aconteceu com o meu kit. Você vai me ver mais maduro operando no BOPE: era só colete, carregador, fuzil, pistola, água e carteira. Se cabia no colete ia, se não cabia não levava.
Só que eu não te desejo essa escola. Eu estou trazendo aqui aprendizado para que você não tenha que pagar o preço da dor, para que você não tenha que pagar o ônus do chicote.
A tradução: o que você faz com isso amanhã
Você só muda por dois motivos: ou você quer muito, ou está doendo muito. Se está doendo, a dor já está fazendo o trabalho dela. Se você quer ir pelo caminho do aprendizado, que é o que eu recomendo, são estes os passos:
O caminho do aprendizado, para quem não quer pagar o ônus do chicote.
O teste prático é simples. Você é colocado para treinar com um campeão que você não tinha como vencer. Eu apanho, perco, mas eu vou sair na porrada, porque o que eu acho maneiro eu acho maneiro. E perdi. Realmente o cara é melhor que eu. Mas eu fiz o meu melhor, e agora eu tenho que arrumar jeito de fazer o meu melhor para dar jeito de vencer a estratégia dele. Está tudo em mim. Isso me protege, não me amedronta, não me faz me entregar.
Porque quando você não controla o resultado, você tem medo das consequências. Você fica perguntando o que vai acontecer. E aí você já perdeu na mente antes de começar: você olha para o adversário e fala que não tem como ganhar. Quando a mente fraqueja, o corpo entrega e não tem o que discutir.
"Eu não sou forte porque eu tenho músculo, eu sou forte porque eu tenho uma cabeça de maluco."
Para quem decide isso dentro de uma organização
Se você lidera equipe, repara onde estão ancoradas as recompensas do seu time. Se o que segura a sua operação é reconhecimento, comparação com o concorrente, meta batida e clima bom, você tem uma equipe calibrada para temperatura e pressão médias. E o seu problema nunca vai aparecer na média. Ele aparece no extremo, que é exatamente onde a regra não se cumpre e onde o time que dependia de variável quebra.
Eu conheço policiais que morreram por causa do foco externo, querendo provar coisas a outros, querendo ter o respeito de pessoas que nem se importavam com eles. Na sua empresa o preço é outro, mas o mecanismo é o mesmo: gente boa se perdendo por reputação, decisão tomada para não parecer fraco, projeto longo abandonado no primeiro revés que não seguiu o roteiro.
Foi isso que eu tive que aprender operando em situação onde não existe segunda chance, e é isso que eu levo para dentro das empresas. Se a sua equipe precisa aguentar pressão prolongada sem depender de tudo dar certo, essa é a conversa.
Solicite uma proposta de palestra e me diga o que a sua equipe está enfrentando agora.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.