Mentalidade Imperturbável
Saída honrosa: o discurso do medroso
Como reconhecer a desculpa nobre de quem desistiu por medo, em você e no seu time. Major Ronald Cadar, do BOPE, explica o mecanismo e o teste dos sete porquês.
O aluno está segurando o fuzil, mochila nas costas, o terror do curso já começou. E aí você passa como instrutor e vê que o aluno está te namorando. Ele fica ali, querendo que você corte o olho com ele. Quando você corta, vem: "Posso falar com o senhor?"
Aí começam as explicações. Vai das mais mirabolantes. Eu já vi de tudo. "Instrutor, minha coluna deu uma travada aqui." Cinco minutos de curso, passou em todos os testes, não travou nada. Teve um que meteu para mim: "Instrutor, estou com uma frieira aqui, eu acho que não vai dar." Tirou o coturno, mostrou o pé, eu olhei, não tinha nada, talvez uma vermelhidão do coturno. Falei que aquilo não era nada, que ele podia continuar, que ali entrou gente com canelite, com pé quebrado, e formou. Ele insistiu que precisava falar com o médico. Foi falar com o médico e não voltou mais.
Isso tem nome. Eu aprendi o termo no curso do BOPE: saída honrosa. É a desculpa que o cara monta para ir embora sem assumir que está com medo. E a tese deste texto é simples: a saída honrosa é reconhecível por um sinal único, que é a justificativa sempre melhorar a imagem de quem a dá. Ninguém dá uma desculpa que piora a própria imagem. E é exatamente por isso que quem usa esse discurso nunca melhora.
Você nunca ouviu um derrotado dizer "saí porque sou fraco"
Repara nisso, filho. Você nunca vai ver o cara da saída honrosa virar e falar: "Cara, saí porque eu sou fraco." Esse maluco não usou saída honrosa. A saída honrosa é o cara que não admite as próprias fraquezas e, para proteger o ego, a vaidade, a imagem, monta uma história para justificar a fraqueza dele.
Teve um que quase pediu para ir embora no teste de água. Eu falei para ele ter dignidade, que era a terceira vez que tentava, que ele já sabia como era o teste, que ninguém escondeu que o teste seria aquele, e que bancasse. Ele bancou, num sanhaço. Chegou na parte de água, se afogou, se agarrou em outro que foi tirar sarro dele, quase foram os dois. Tiveram que tirar os dois. Tempos depois eu ouvi alguém dizendo: "Não, fulano saiu porque perseguiram ele." O cara quase se afogou sozinho, mas meteu o discurso de saída honrosa.
O mal é a vaidade, filho. Tem gente que vai para campeonato porque quer mostrar que é forte e não para ficar forte.
Como o medo vira nobreza dentro da sua cabeça
Aqui está o mecanismo, e ele não é misterioso.
O seu límbico é a parte emocional do cérebro, e é onde está quase toda decisão. Ele processa uma coisa como medo, antecipa que vai ter dor, e a amígdala fica latente, o cortisol vai subindo. Entra a figura de uma ameaça, você entra em desespero. Quando o cortisol bate um pico que você nunca teve, o seu sistema de proteção fala assim: "Irmão, se você não decidir, eu decido." Sequestra a amígdala, desconecta o córtex, e agora é luta, fuga ou congela.
Só que o córtex não desaparece. Ele volta depois, e volta com uma função só: escrever a versão apresentável do que aconteceu.
Quando o medo vence, a razão não lidera mais. Ela apenas cria uma justificativa.
E isso não é só de combate. Você entra em fuga numa discussão. Você entra em fuga quando vai apresentar um trabalho na sala e não consegue falar. Você entra em fuga no relacionamento que você não está sabendo administrar e começa a inventar motivo para terminar. É o mesmo circuito, com roupa diferente.
Eu chamo de discurso de Miss Universo
Antigamente tinha aquelas transmissões de concurso em que, no final, a candidata respondia umas perguntas e a resposta era sempre clichê: quero acabar com a fome do mundo, quero prosperidade, igualdade para todos. Um discurso morno, perfeitinho, que não critica ninguém e não arruma problema com ninguém.
Toda vez que eu vejo alguém montando um discurso assim, muito encaixadinho, para justificar um ego, eu falo que é discurso de Miss Universo. Os exemplos que mais aparecem:
- "Preciso cuidar da minha saúde mental." Na verdade ele nunca procurou cuidar disso antes, mas agora ele quer.
- "Esse ambiente é tóxico." Traduzindo: não aceito ser cobrado, então tenho que acusar os outros.
- "Minha fé não permite." Usar a autoridade de Deus para fugir das próprias lutas. Os Templários vinham do monastério para a guerra, filho. Era da fé para o combate.
- "O que eu tinha que aprender, eu já aprendi." O cara desiste no começo do curso e diminui o nível do lugar para justificar a saída.
- "Era mais inteligente parar." O limpinho, aquele soberbo que não mete o pé na lama e passa a vida achando a saída inteligente que nunca aparece.
Repara no que todos têm em comum: uma virtude subjetiva, difícil de medir e impossível de discutir. Tóxico, saúde mental, perseguição. É vago de propósito.
O teste que desmonta: os sete porquês
Contra o vago, pergunta concreta. É o que eu ensino no curso: sete porquês genuínos, no bate pronto, e em uma hora o cara se entrega.
"Me perseguiram." Por que te perseguiram? Tinham quinhentas pessoas ali, por que só você? Você fez alguma coisa? E aí você começa a embananar o cara.
Agora, um aviso honesto: quando você acua e pega na mentira, ele pode ficar agressivo. Porque ele entra no mesmo sistema de luta ou fuga, ou te ataca ou foge do debate. Você colocou ele diante da própria fraqueza, e ele estava mentindo justamente para não passar por essa dor.
Tem um segundo teste, mais barato ainda, e esse é o que serve para quem contrata e para quem lidera: o tempo. A verdade é amiga do tempo, porque no fator tempo você consegue reparar recorrência de padrão. O mesmo cara, em todos os ambientes, arruma o mesmo tipo de problema. Segundo o discurso dele, é o ambiente que arruma problema com ele. Todo lugar que ele trabalha tem alguma coisa mirabolante que acontece e só ele se dá mal.
E aí, o que é mais provável? Todos os locais terem tramas mirabolantes para te atrapalhar, ou você ser o problema que não assume o próprio erro? Eu voto na segunda opção sempre.
Você consegue enganar muita gente por pouco tempo ou pouca gente por um bom tempo, mas não dá para enganar todo mundo por todo tempo.
O preço real do alívio
A justificativa nada mais é que uma compensação para você não assumir a dor do erro. E a dor é justamente a peça que faz a coisa funcionar.
Se você falha numa missão com a qual se comprometeu e reconhece que foi um merda, isso vai te incomodar muito. É papo de não dormir à noite, de nó na garganta, de vergonha de se olhar no espelho. E essa dor vira ira, que te dá energia, que faz você ultrapassar aquilo que não venceu ontem e chegar na satisfação de verdade. A roda girou, e você saiu com um aprendizado.
Quando você justifica, você arruma uma satisfação provisória. A honra do perdedor, aquele "vamos pegar leve com ele porque já caiu". É uma dopamina merda, não se compara à da vitória.
Quem assume a dor
Quem monta a saída honrosa
Os dois começam na mesma falha. O da direita economiza a dor de hoje e paga juros pelo resto da vida.
Toda vez que você desiste de um processo, você guarda uma dor que só vai curar quando encerrar esse processo ou aprender a curar ele. Não resolver é uma dor para sempre. Eu fui fazer um curso e tinha cara ainda falando do curso de 2012, contando as histórias como se fosse ontem. A vida do cara parou lá.
Mas às vezes o problema é real mesmo
É, e essa é a objeção certa. Nem toda desistência é covardia.
Eu voltei a treinar jiu-jitsu depois de muito tempo parado. Corro dois quilômetros todo dia desde janeiro, faço musculação todo dia, tenho carcaça, e mesmo assim o gás do jiu-jitsu é outra coisa. No terceiro treino eu só não parei por orgulho, já estava sem ar nenhum, segurava as posições e amarrava. Um faixa preta me chamou para o quarto treino e eu falei que não dava, que não ia render. Aquilo não foi saída honrosa. Eu tinha um problema real, e eu achei que ia passar mal.
A diferença está no que veio depois. Na semana seguinte eu cheguei e já fui logo treinar com ele. Falei na cara: você pode sair daqui com a impressão de que eu sou fraco, mas não vai sair com a impressão de que eu sou covarde.
Então o critério é esse, e são duas perguntas que você faz para si mesmo:
- Eu estou com medo ou eu tenho um problema? Se é medo, ele tem que ter lógica. Medo de quarto escuro não tem.
- Essa decisão de desistir me fortalece para eu voltar melhor, ou ela só está me aliviando porque eu estou desesperado?
Machuquei a perna num curso porque usei um coturno errado. Beleza: trata e volta. Isso é problema. O que não vale é mentir para si mesmo. Não deu para fazer, não deu. Agora, se não deu porque você não se comprometeu, assume isso também.
O que fazer com isso na segunda-feira
O ciclo é curto e é eterno:
- Assuma que você está com medo. Sem plateia, sem discurso.
- Racionalize o medo. Qual é a razão dele? Qual é a justificativa para ele existir? Se não sustenta uma pergunta, ele não sustenta uma decisão.
- Enfrenta. Vai lá e faz valendo.
- Se perder, perceba onde falhou. Não foi o patrocínio dos outros. Foi a sua meia guarda, foi a sua queda, foi você ter entrado sem técnica e sem aquecer.
- Corrija esses pontos e vá de novo.
Você vai para o campeonato não para parecer forte, e sim para ficar forte, pegar um feedback e voltar melhor. Ganhou? Então não tem mais o que aprender ali, procure um lugar mais difícil.
Só existe uma derrota na vida. Morrer. Fora isso, toda derrota é psicológica.
E eu não estou falando de fora. Estou de férias, quinze dias de férias e quinze trabalhando, e todo dia de manhã uma desculpa honrosa aparece na minha cabeça. Hoje eu tenho que levar meu filho na creche, então não faço. Todo dia. Aí eu lembro de um relato do Chico Xavier, que ficou cego de um olho e não foi atender as pessoas, e reclamou com o mentor dele: você não está vendo que eu estou cego de um olho? E o mentor respondeu que ele ainda tinha o outro, que continuasse trabalhando, que podia não ter nada, que tem gente que depende dele. Toda vez que eu me pego cansado, querendo me dar desculpa, eu me cobro com isso. E aí eu levanto e faço.
Por que isso é problema de empresa, e não só de curso
O discurso de saída honrosa aparece em vários cenários, e o emprego é um deles. O cara nunca consegue parar num emprego, e sempre foi o chefe que perseguia. No final ele é repetitivo em todos os ambientes. Se em todos os ambientes todo mundo é otário, o otário é ele.
O custo para a empresa não é o pedido de demissão. É o time inteiro que aprende, olhando, que existe uma saída elegante para não bancar o que foi combinado, e que ninguém vai puxar o fio. A partir daí toda entrega passa a ter uma versão apresentável do fracasso pronta antes mesmo da entrega.
Um artigo mostra o padrão. Ele não instala numa liderança a coragem de fazer a pergunta desconfortável na hora certa, sem transformar isso em humilhação. Isso se treina com quem passou anos separando, na prática e sob pressão real, quem tem um problema de quem está com medo.
Se a sua operação tem essa cultura da desculpa nobre instalada, e você quer que a sua liderança aprenda a reconhecer o padrão e a cobrar sem quebrar gente, é sobre isso que eu falo dentro da empresa.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.