Cultura de Alta Performance
Quer crescer? Troque sua ambiência
Por que 95% das suas decisões são tomadas pelo ambiente, e o que custa de verdade trocar o seu. Major Ronald Cadar, do BOPE, explica o mecanismo.
Eu gravei esta aula no quarto do meu filho. Não tem estúdio, não tem momento perfeito. Eu faço o meu ambiente, eu faço as minhas escolhas, tentativa e erro, e eu não desisto.
Digo isso logo no começo porque o assunto de hoje é exatamente esse: ambiente. E eu preciso que você entenda uma coisa antes de qualquer outra. Você não decide quase nada. Cerca de 95% das coisas que você decide são baseadas em impulso e em feedback do teu corpo. Só uns 5% são livre arbítrio de verdade, decisão racional. Se 95% das suas decisões são influenciáveis e você está num ambiente ruim, você vai tomar decisões ruins. É básico.
Quem está na trincheira é mais importante que a própria guerra.
Por isso eu não chamo de ambiente só. Eu chamo de ambiência. E a tese aqui é simples: quem quer crescer troca a ambiência, e paga o preço por isso.
Por que o ambiente decide por você
Seu cérebro está numa caixa escura. Acredita nisso. Ele não sabe o que é realidade, não sabe o que é passado, presente ou futuro. Ele só recebe informação em três códigos: imagem, som e sentimento. Tudo que você pensa, deseja ou busca vai ser codificado nessas três coisas. Tenta pensar no teu futuro agora. Você vai formar uma imagem, uma sensação ou um som. Pensa num problema que você já teve. Mesma coisa.
Como ele não sabe o que está acontecendo lá fora, ele decide com base em duas alavancas: o impulso que a máquina gera e o feedback que o corpo devolve. Decidir racionalmente é uma coisa muito mais rara na sua existência do que você imagina.
E o corpo inteiro participa. Todas as nossas células têm receptores de sentimento, e a gente só tem quatro sentimentos: alegria, tristeza, ira e medo. Quando você tem medo, você tem medo no corpo todo. Você descarrega aquele neurotransmissor que conecta no teu corpo inteiro.
É por isso que a gente é um corpo sugestivo. Se uma pessoa consegue causar um feedback no teu corpo, ela altera a tua percepção de realidade. Eu chego em casa gritando, meu filho pequeno se reprime, se encolhe, chora. Eu chego em casa cheio de energia, "bora, moleque", o corpo dele sobe junto. Não foi argumento. Foi ambiência.
Marco Aurélio já ensinou que a gente não deve lutar contra os nossos instintos. Se você sabe que com fome decide errado, não decida com fome. Se com sono você não calcula direito, não calcule com sono. É a mesma lógica de um presidente dos Estados Unidos que não escolhe nem a própria roupa, como o livro Essencialismo explica. Não é frescura. É para ele não ter desgaste mental e guardar a cabeça para as decisões que realmente exigem razão.
O experimento que mostra o tamanho disso
No curso eu apresento vários estudos que provam que o ambiente move você. Aqui eu vou dar um só, porque ele é simples e ninguém consegue discutir com ele: o efeito priming.
Em 1996, o pesquisador John Bargh levou pessoas para uma sala. Fez dois grupos. Com um grupo, o de controle, não falou nada relacionado a influência. Com o outro, falou sobre assuntos geriátricos, sobre velhice. Quando essas pessoas voltaram pelo corredor, o grupo de controle manteve a mesma velocidade e o outro grupo andou 20% mais devagar.
No outro dia ele fez o mesmo serviço, só que falou de jovialidade, força, energia, capacidade. Manteve o grupo de controle. E essas pessoas passaram pelo corredor 20% mais rápidas, com melhor postura.
Ninguém mandou aquelas pessoas andarem mais devagar. Ninguém pediu postura. Só mudou o que entrou pelos sensores delas por alguns minutos.
Ande com quatro otários e você será o quinto. Ande com cinco milionários e você será o sexto.
Repara no tamanho disso e agora aplica na tua vida inteira. Não em cinco minutos de conversa: nos anos que você passa no mesmo grupo, no mesmo escritório, no mesmo feed. Ambiente negativo reduz a tua produtividade em 40%. Ambiente positivo aumenta em 20%. O negativo é muito mais ramificado, espalha mais rápido, mas dura pouco tempo. O positivo é mais concentrado, mas dura muito mais.
E ambiência não é só gente do mundo físico. É virtual também. Se você só acompanha quem fala de futilidade, você vai ser fútil, você vai ser infantil. Seu cérebro não sabe distinguir o que é verdade e o que é mentira na internet. Se você está se alimentando daquilo em imagem, som ou sentimento, ele está absorvendo como verdade. Ponto.
"Mas trocar de amigo não é egoísmo?"
Essa é a objeção que sempre aparece, e ela é honesta. Vamos encarar.
Cristo falou: ame o próximo como a ti mesmo. Como a ti mesmo. Se eu não amar a mim mesmo, eu não vou ser um bom amar ao próximo, eu vou ser um servil. E servil não serve para ninguém.
Eu amo todos os meus amigos, inclusive os de infância. Só que eles não tinham a mesma realidade que eu. Ninguém ali era rico, mas um tinha uma mãe que recebia pensão, o outro tinha o pai militar, o outro tinha a mãe professora. Meu pai era desempregado. Eu já trabalhava com meu pai desde os 9 anos. Quando eu olhava para os meus amigos, eu era o mais quebrado. Eu tinha mais necessidade que eles, então eu buscava outras coisas.
E eu chamei. Você acha que eu não chamei meus amigos para estudar para oficial? Para Fuzileiro? Quando eu comecei na internet, você acha que eu não chamei? Chamei. Os caras não quiseram vir. Eles queriam seguir a vida do jeito deles, porque as necessidades deles eram outras. E está tudo bem.
Só que eu não podia parar ali. Quando minha mãe fica doente, eu tenho que ter plano de saúde, porque ela não tem. Quando eu trouxe minha mulher de casa, eu passei a ser responsável por ela. Meu pai morreu no SUS. Eu sei o que é ter direito e ter que ficar implorando para alguém te ajudar. Eu não estava forte o suficiente naquela época, fiz o que pude, ele foi bem atendido dentro do que eu podia. Mas eu não vou pagar essa ficha duas vezes. Hoje minha mãe tem plano, minha mulher tem plano, meu filho tem plano. É tudo comigo.
Isso não é romper com ninguém. A lealdade não prescreve. Um amigo meu foi comigo para o batalhão, o 14, e ele hoje segue outro caminho. A gente não deixou de ser amigo porque não está fazendo a mesma coisa junto. Se ele ligar a qualquer hora, eu broto. Não é porque você trocou de ambiente que você virou traidor.
O teste é outro, e é fácil de aplicar: amigo te entende. Você fala "irmão, o melhor para minha vida agora é fazer isso", e o teu amigo fala "vai lá, e se der ruim volta". Quem não é amigo fala que você mudou, que ficou arrogante. Se ele quer você, mas só do jeito dele, ele não quer um amigo. Ele quer alguém servindo ao momento dele.
As três influências que valem não são tipos de pessoa, são posições na mesma trajetória. A distância até você é o que define o tipo de ajuda que cada uma consegue dar.
O preço que ninguém quer pagar
Aqui está o erro que eu mais vejo. O pessoal quer trocar o ambiente e quer manter o ambiente. Quer crescer e quer manter tudo igual. Não dá.
Não dá para carregar a mochila toda, só dá para carregar o necessário. Minha família é o meu necessário: minha mãe, minha mulher, meu filho. Qualquer lugar que eu chegar, eles estão comigo. O resto eu mostro o caminho, mas não obrigo ninguém a seguir, e aceito que eles não vão estar comigo em todos os momentos. É do jogo.
Quando eu decidi parar para estudar para oficial, era o meu fim de semana que eu tinha que sacrificar. Não tem crescimento sem sacrifício. Equilíbrio existe, sim, para quem já tem uma vida equilibrada. Quem tem uma vida desequilibrada e quer fazer uma curva angular forte não pode ter equilíbrio. Infelizmente é assim.
Eu poderia ter sido faixa preta dez anos antes. Eu demorei 20 anos. No ritmo que eu treinava, dava para ser em seis, sete, oito anos. Mas eu tinha uma necessidade, eu precisava de salário. Eu não ia ser atleta, eu ia ser soldado. E quando decidi que ia ser caveira, não estava discutindo nem negociando: eu só ia parar concluído ou morto. Ninguém quis vir comigo.
Quando o castigo vem, a salvação é individual.
Esse é o preço. E ele é declarado, não é motivacional. Tem muita gente que diz que quer e eu chamo de papagaio, porque falar até papagaio fala. "Eu quero ser caveira." Quer mesmo, filho? Está disposto a sacrificar? Está disposto a virar sua cabeça de cabeça para baixo por uma coisa que pode não dar certo? Não tem garantia. A vida não tem garantia.
As três influências que valem, e a sua parte na conta
Se você vai selecionar ambiente, selecione com critério. Só existem três influências que valem a pena seguir:
- Quem já está lá.
- Quem já esteve.
- Quem está indo.
São essas pessoas que sabem resolver os obstáculos que você vai encontrar. Se você tiver um desses três para ouvir, está perfeito. Se não tiver, vai ter que quebrar pedra até aprender. E o primeiro que vai é sempre o que se ferra mais.
Duas perguntas para fechar o diagnóstico. A primeira: se você virou o melhor do seu ambiente, está na hora de mudar. Ambiente que não tem mais nada para te ensinar já cumpriu a função. A segunda: se o ambiente não está crescendo, ele está descendo. Não existe estabilidade.
E tem a sua parte, que é a que ninguém olha. Você tem que ser uma pessoa que soma ao ambiente, não uma pessoa que pesa. Eu não sou o cara que chega gritando que o avião está caindo. Se o avião está caindo, eu chego e falo: põe a máscara, liga o sensor, faz a tua última oração. Eu falo solução. Às vezes o pessoal reclama que eu dou esporro. Meu esporro não é para pesar, é para acordar. Eu falo a verdade, e nem todo mundo quer ouvir.
Repara no CrossFit. Por que aquele pessoal muda tanto? Porque ali existe cultura. É competitivo, o treino é por desempenho, e naturalmente quem quer melhorar o desempenho começa a melhorar a filosofia de vida: alimentação, sono, dieta. As pessoas que treinam nesses ambientes ficam parecidas. O ambiente contamina. Só que contamina para os dois lados. O nocebo, que é o efeito oposto, funciona igual. Anda num ambiente onde só tem gente de mente pequena e você vai absorver aquilo, porque o ser humano é altamente sugestionável.
Você é a média das pessoas com quem você anda. A Bíblia resumiu isso há dois mil anos: diga com quem andas e te direi quem és. Acabou. Não tem como discutir.
Se isso vale para uma pessoa, vale para uma equipe
Tudo que eu escrevi aqui vale para o seu time também. A diferença é que numa empresa o ambiente não é escolha de um homem só: é a soma do que a liderança tolera, do que ela premia e do que ela deixa passar em silêncio. Se 95% das decisões das pessoas são influenciáveis, a cultura não é um cartaz na parede. É o sistema de decisão da sua operação.
Ler sobre isso mostra o mecanismo. Não instala a ambiência. Instalar é um trabalho de presença, de gente na mesma sala ouvindo a mesma coisa, com alguém que já teve que tomar decisão errada com fome, com sono e sob pressão real, e que pagou por isso.
É isso que eu levo quando falo para uma equipe. Se você é quem decide a formação do seu time e está vendo o ambiente puxar as pessoas para baixo mais rápido do que qualquer treinamento consegue puxar para cima, é essa conversa que resolve o que o texto não resolve.
Solicite uma proposta de palestra.
Eu tenho minhas limitações e faço como posso. Mas eu quero ver vocês prósperos. Eu quero ver vocês mudando. Por isso a gente vai dominar o mundo. Nós somos 1%.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.