Mentalidade Imperturbável
As nove regras de quem aposta vida e liberdade na mesa
80% das mortes de policial acontecem na folga. Major Ronald Cadar, do BOPE, explica por que a conta é cobrada fora do serviço e quais decisões precisam estar tomadas antes.
Um seguidor me procurou depois de uma noite ruim. Ele tinha ido a um pagode famoso em Paquetá, uma ilha no meio da Baía de Guanabara, três horas de barca, três barcas por dia. Levou o cooler dele. Uma garota empurrou o cooler, começou a afrontar, se irritou com ele. Ele aplicou uma trava nela e ficou esperando a situação evoluir. Depois me perguntou: o que o senhor faria numa situação dessa?
Respondi que eu não estaria ali.
Ele insistiu: mas se estivesse. Eu não estaria, filho. Essa é a resposta inteira, e é também a tese deste texto: quando a sua profissão coloca vida e liberdade na mesa, a decisão que importa não é a que você toma no conflito, é a que você toma semanas antes, escolhendo onde pisar. Oitenta por cento das mortes de policial acontecem no trajeto ou na folga. A conta não é cobrada no serviço.
Eu sou Cadar, sou caveira, tenho 20 anos nesse jogo. Já fui soldado, já fui aluno de curso de formação, operei nos batalhões mais bravos desta cidade. Vi perda de carreira, perda de família, perda de vida. Resumi em nove regras o que aprendi batendo cabeça.
Por que isto não é um emprego
Isto aqui não é uma profissão, é um sacerdócio. Por quê? Porque ocupa a sua vida no serviço e na sua folga. Ela é indivisível de você. Cadar é policial em qualquer lugar, por ação ou por omissão.
Quando a gente escolhe uma carreira dessas, entra numa mesa de jogo. Cada mesa aposta uma coisa. Uma você aposta sua fortuna, seu dinheiro. Outra você aposta seu tempo. Outra sua energia. Outra sua saúde. Aqui é vida e liberdade. Não tem outra coisa.
Repara nos números que sustentam isso. Uma pessoa comum tem uma estatística em torno de 30 para 100.000. A nossa, no Rio de Janeiro, é de 200 e alguma coisa para 100.000. E no local mais violento do mundo, o paisano tem 70 para 100.000. Ou seja: no lugar mais violento do planeta, onde todo mundo é desesperado com segurança, o policial do Rio ainda tem quatro vezes mais chance de morrer que aquele civil.
Eu jogava RPG, sou nerd, já falei isso para vocês. Tem um jogo chamado Caçadores e Caçados, em que você monta um personagem que caça monstros a partir de conceitos: o religioso, o que faz por fé, o que faz por vingança, o caçador errante, o arsenal. Só existe um conceito que você não pode escolher, que é o conceito do perdedor. Conceito do perdedor é aquele cara que ignora as regras do jogo. Vai caçar vampiro, mas não leva estaca porque acha bobeira, não faz as preparações, não tem estratégia. Ele morre. Você não pode ser o conceito do perdedor, filho.
Não pode tratar com displicência o que vale a vida.
A mesma briga, duas contas diferentes
O erro mais comum não é cair em emboscada. É se colocar em emboscada. E ele nasce de achar que a conta é igual para todo mundo.
Paisano
Policial
O mesmo fato, dois preços. É por isso que a folga não é folga.
Teve uma confusão no Rio, numa boate, em que bateram no filho de uma autoridade. Não vou entrar no mérito de quem começou. Todos os policiais que tinham acautelado arma para entrar, e quando você entra em boate você acautela a arma e fica registrado ali seu nome e RG, todos eles foram botados em conselho de expulsão, por ação ou omissão. Teve cara que estava do outro lado do salão, não sabia nem o que estava acontecendo, viu a confusão, se afastou, meteu o pé da boate. Foi botado em conselho do mesmo jeito.
É justo? Não. Mas existem três mundos, e você tem que decidir em qual deles vai viver.
Existem três mundos. O que é ideal, o que eu acho certo e o de verdade.
Ou você entende que o mundo é como é, ou você vai estar sempre levando a pior. Se ficar chorando não resolve.
As nove regras
1. Organize seus valores antes de entrar. Antes de entrar, você está movido pelo seu ideal, pelo que você acredita puramente. É o mais puro que existe dentro de você. Depois que você entra, vem estresse, pressão, decepção, frustração, assédio, e essa não é hora de escolher valores, porque frustrado você não decide bem. Eu decidi antes: podem falar que o Cadar é babaca, que tirou gente do curso, que bateu, que deu tiro, que é maluco. Mas não podem falar que o Cadar pegou nada de ninguém, que foi frouxo, que deixou alguém para trás, que é desleal. Não tem um episódio em 20 anos, nem perto. A maior traição é quando você trai a si mesmo.
2. Selecione seus ambientes. Aprendi o termo com o Pranksk: local de desinteligência. É o local onde as pessoas não se respeitam, onde a força impera, onde já aconteceram crimes, onde tem bebida ou droga. Antes de entrar em qualquer lugar, se pergunte:
- Isso aqui condiz com um policial?
- Tem razão de eu estar aqui?
- Quem frequenta esse tipo de local?
Quando tem muita gente junta e bebida, já tem chance de dar problema. Quando se paga mais, se filtra o local. Só que o policial às vezes é muito sovina: quer o lugar que deixa ele entrar de graça, o lugar em que a segurança bota ele para dentro. Esse lugar não vai te dar ambiente inteligente. Quer ir? Vai. Mas não reclama. Eu estou deixando o aviso.
3. Entenda que você responde sozinho. O civil pode fazer tudo que a lei não proíbe. O agente público só pode agir sobre o que a lei autoriza. E toda ação sua vai ser reavaliada por três instâncias:
- A corregedoria, que tem meses para debruçar sobre o que você fez.
- O delegado, que tem uma investigação inteira para deduzir.
- O Ministério Público, que tem o tempo que quiser para denunciar ou não.
Você teve três segundos para decidir. Eles vão olhar com calma, ar condicionado bombando, salário na conta. E tem uma coisa pior: não basta fazer o certo, tem que parecer certo. Eu vi um policial ser expulso por ir ajudar um amigo de infância num problema de aluguel. Estava no setor dele, se posicionou, ninguém brigou, os caras conversaram educadamente. O outro foi na corregedoria e denunciou. Expulso. Não é o que você fez, é o que vai ser explicado do que você fez.
4. Cuidado com vaidade e ganância. São os dois principais pecados que ferram o policial. Pela vaidade de não ser desrespeitado, você faz uma besteira e ou morre ou perde a carreira. Pela ganância de ostentar, de querer ter mais do que precisa, você se atrapalha no caminho. Toda função fiscalizatória sofre assédio das pessoas que são fiscalizadas. A maçã parece bonita na árvore, mas vai te tirar do paraíso.
5. Cuidado com amizades e com quem você escolhe como parceiro. Ambiente mais pessoas é o que eu chamo de ambiência. Bom amigo não pede. Meus melhores amigos não me pedem favor, porque se preocupam com o que pode acontecer comigo. O interesseiro cobra: como assim tu não pode me ajudar, tu é maior bundão. Ele vai te provocar para fazer. Quando você ganha farda, arma e salário, seu status sobe, e as pessoas querem o seu poder, não querem você. O poder do não filtra. E a escolha do parceiro é a decisão mais importante da sua vida: eu conheço moleque que perdeu a carreira porque estava num local de desinteligência, um bêbado mexeu com eles, a mulher cobrou que ele não era homem, pilhou, pilhou, pilhou. Ele foi, ganhou a briga na porrada, registrou. Não pode mais entrar.
6. Na folga, não seja o xerife da rua. Não torne pessoal, porque pessoal resolve com pessoal. É trabalho. Eu não tenho problema com ninguém que eu prendi ou matei, porque fiz no trabalho. Na folga, manda chamar a emergência. Se você prancha alguém na sua rua, você passa a ter uma pessoa magoada que sabe onde você mora. Tem um filme do Al Pacino, dos anos 70, chamado Cartada Final. Vou dar spoiler: o cara atravessa a máfia inteira, atravessa a polícia, e quem mata ele no fim é um pé no saco que guardou uma mágoa e esperou o momento certo. Vi muito policial perder assim, fazendo trabalho na folga.
7. Acerte seus dogmas antes de meter a mão na arma. Dogma é a crença que você tem como valor base. Um garoto cristão me perguntou como ia lidar com matar alguém, se matar é pecado. Davi matou, Josué matou, vários heróis bíblicos mataram, mas mataram dentro dos preceitos, em confronto, para se defender, para defender seu povo. Você não precisa seguir a minha linha de raciocínio, mas não deixe para decidir isso na hora em que mete a mão na arma, porque você tem poucos segundos. Se você parar para pensar no seu dogma ali, você morre ou deixa alguém morrer.
8. Família é sagrada, e não crie neurose onde não existe. Aqui no Rio existe uma regra não oficial: ninguém se mete com a família de ninguém. E ela tem um motivo prático, que eu explico na aula de criminologia: os chefes de facção estão quase todos presos e têm família, então não é inteligente para eles atacar família e deixar a deles vulnerável. Você não tem estatística de família sendo atacada de forma premeditada. Acontece de um familiar inocente ser atingido numa troca de tiro, mas isso é fato do momento, da crise. Seja racional com seus medos. Não é porque uma coisa pode acontecer que ela vai acontecer.
9. Aprimore-se. Para a polícia e para a sociedade, você é só uma farda no posto. Polícia boa é a que não dá trabalho. Mas para a sua família você não é número. A polícia vai te sugar tudo, porque ela é uma empresa, e empresa suga. Se você não tiver condições, vai fadigar, vai quebrar, vai te faltar ferramenta quando realmente precisar. A cada dois anos eu estava fazendo algum curso: instrutor de tiro, sniper, proteção de autoridade, dois de inteligência, pedagogia e formação de instrução. Não me aprimorei por vaidade de ser cursado. Me aprimorei pela família.
E se eu sair como fraco?
Essa é a objeção que eu mais escuto, e ela vem sempre no mesmo formato: se eu não reagir, se eu sair do local, se eu não encarar, eu saio como fraco.
Isso é um problema seu com a sua vaidade e com o seu ego de reputação.
Eu não estou disputando uma batalha, eu estou querendo vencer a guerra. Ganho desse cara hoje e amanhã perco a guerra porque não posso mais entrar na carreira que eu quero. Isso tem nome: vitória de Pirro. Pirro era um rei grego cujos generais voltaram felizes da guerra depois de perder metade do exército, e ele respondeu que com uma vitória daquelas estava derrotado. Vitória de Pirro é a vitória que não vale a pena.
Eu tenho um código: eu não bato em mais fraco. Bêbado, velho, mulher, eu não brigo. Se eu bater, é vergonha. Se eu apanhar, é vergonha. Eu já chego perdendo. A única saída é não entrar na briga. E não é desonra porque os outros vão falar, é na minha cabeça.
Honra é o que te permite entrar na lama e sair sem se sujar.
O que isso vale para quem nunca vai vestir farda
Você que lê isto talvez não seja policial. Talvez você lidere um time, tome decisões sob pressão, responda por um erro que levou três segundos e será auditado por meses. O mecanismo é o mesmo.
Repara no que essas nove regras têm em comum: nenhuma delas é uma técnica para o momento da crise. Todas são decisões tomadas antes, com a cabeça fria, sobre valores, ambiente, gente e preparo. Quem entra na crise sem isso resolvido decide frustrado, decide com medo, decide para a plateia. E aí paga a conta sozinho, porque a conta no final é sempre individual.
Toda ação de alguém mostra uma crença que autoriza, uma ausência de medo do risco e uma oportunidade. É o triângulo que eu ensino: crença, medo, oportunidade. Se nada mudar, repete. Todo crime é cíclico, e todo erro de comportamento também. Aquele bar onde já teve um assalto e nada foi mudado vai ter assalto de novo.
Guerra avisada só perde quem quer.
A ponte
Se a sua organização opera onde uma decisão de segundos vira crise pública, processo, perda de gente boa e de reputação, o que separa quem atravessa de quem entra na estatística não é coragem no momento. É o que ficou decidido antes: valores, ambiente, escolha de gente e preparo. É exatamente esse mecanismo que eu levo para palestras corporativas, com o que eu vi funcionar e falhar em 20 anos.
Se é isso que o seu time precisa ouvir, solicite uma proposta de palestra.
Eu estou apostando em vocês.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.