Mentalidade e planejamento sob pressão
O preço da vitória são mil derrotas: as três regras que eu uso para planejar
Major Ronald Cadar explica como escolheu a guerra que podia vencer, por que a derrota ensina o que a vitória não ensina, e as três regras que sustentam qualquer planejamento sério.
São 4 e pouco da manhã, quase 5, e eu estou gravando. Hoje meu filho tem evento na creche, Dia das Mães. Minha esposa virou a noite estudando, tem prova da faculdade, então quem vai lá representar sou eu. Não sou a mãe, mas isso aqui é um time.
Reparou que ninguém filma essa parte? As pessoas veem o retrato na parede, o brevê no peito, o título que chama atenção, a fama que cerca. Mas você sabe quanto custa o sucesso?
A minha resposta é essa, filho: o preço da vitória são mil derrotas. Você só precisa acertar uma vez, mas vai ter que errar mil. Todos podem vencer, e eu digo isso com total confiança. Poucos estão dispostos a pagar.
Por que "preço" é a palavra errada quando o assunto é conquista
Preço é comprável. Se o seu sucesso custa dez funcionários, é barato, dinheiro compra. O problema é que chegar ao 1% vai exigir muito mais que isso.
Vai exigir:
- uma subida solitária;
- desfazer amizades de gente que não quer te acompanhar;
- sacrificar momentos que você ama e acha importante;
- muito mais tempo na zona de derrota, desconforto e sofrimento do que na zona de vitória.
A zona de vitória vai ser um dia só.
Aí eu te pergunto: você está mesmo disposto a perder mil vezes para ganhar uma? De boca, todo mundo diz que sim. Na prática, quase ninguém.
E não estou menosprezando ninguém, estou falando da média. A média não aguenta ficar sozinha, não aguenta desagradar os outros, não aguenta crítica. É do ser humano poupar energia. É do ser humano não resolver o problema de dentro e tentar completar com o de fora. Isso destrói qualquer conquista, porque o sucesso é uma montanha íngreme, antinatural, inóspita e pouco habitável.
Repara na conta: se você quer estar onde ninguém com quem você anda esteve, você tem que fazer o que todo mundo com quem você anda não faz. É antinatural por definição. Por isso as pessoas se afastam. Não é traição delas, é que elas não estão dispostas àquilo.
Não existe macete, existe constância
A grande ilusão é acreditar em fórmula mágica.
Teve um aluno meu que passou dois anos comprando curso de macete de estudo, daqueles que vendem a técnica do cara que passou em primeiro colocado não sei onde. Ele fez tudo aquilo e no final me disse: o que realmente me fez passar foi sentar a bunda na cadeira e estudar.
A fórmula de tudo é simples. Constância. Tudo vai ser resolvido pela constância.
Constância. Doente, gripado, madrugando, é constância. Eu brinco que não tenho talento nenhum, sou teimoso. Fui um garoto com dificuldade de aprendizado, tenho minhas limitações, e foi isso que me obrigou a ser teimoso desde pequeno. Para essa tartaruga disputar de igual para igual com os coelhos, eu tive que perder muito. Então eu já estou acostumado a perder.
E é por isso que eu sei que vou ganhar. A derrota ensina coisas que nenhuma vitória vai te ensinar. A vitória é sinal de que você acertou o processo inteiro, não tem o que aprender ali, por isso campeão dura pouco. A derrota é um lembrete de que você precisa melhorar. Eu não tenho mais trava com derrota. Não tenho preocupação se vão me criticar, se vou ficar sozinho, se vou ter apoio. Eu só tenho que fazer o que eu planejei.
Isso vale para uma carreira e vale para uma organização. A vida é feita de vários processos, picos e vales. Você bate o pico, e para chegar no próximo você tem que passar pelo vale antes.
As três regras que eu não abro mão para planejar
São três. Não tem mais que isso. Se você quebrar uma dessas pernas, não anda.
- Conheça você e as suas condições.
- Saiba onde você quer chegar, e entenda o sistema que você vai enfrentar.
- Faça com intencionalidade.
As duas primeiras são a frase mais famosa de Sun Tzu, aquela que todo mundo repete sem entender: conheça a si mesmo e conheça o inimigo e não temerás mil batalhas. Conheça a si mesmo e não conheça o inimigo, e para cada vitória você terá uma derrota. Não conheça nenhum dos dois, e você perde todas.
Regra 1: quem não conhece as próprias condições escolhe a guerra errada
Um garoto conversou comigo. Estuda em colégio público à noite, trabalha no shopping, formação estudantil precária. Ele me diz: "eu vou fazer Escola Naval." Uma das matérias da prova é redação em inglês. Isso já é um limitador social absurdo, porque a classe operária não tem essa formação. Perguntei se ele já estava estudando. "Não, vou começar agora, botei na cabeça que eu vou ganhar."
Ele não conhece as próprias limitações.
Quando eu fui escolher meu concurso, eu nunca quis ser policial. Eu botei no papel.
- Forças Armadas: eu podia tentar até uns 23 anos e já tinha 20, 21, então sobravam umas três tentativas, e ainda teria que aprender inglês e ser bom em cálculo, que a minha formação precária não deu.
- Oficial do bombeiro: bombeiro é maneiro, ninguém fica chateado com bombeiro, mas a prova básica no Rio é exatas, e eu sou péssimo em exatas. Só que dava para tentar até os 30, já ficou melhor que as Forças Armadas.
- Oficial da polícia: básica de humanas, e humanas eu desenrolo. Contando as tentativas até os 30 anos, eram oito.
Oito anos para aprender humanas até ser o gabarito da prova.
| A guerra possível | Janela de tentativas | O que a prova cobra | A minha condição real |
|---|---|---|---|
| Forças Armadas | Três tentativas, até uns 23 anos | Inglês e cálculo | Formação precária não deu |
| Oficial do bombeiro | Até os 30 | Exatas | Péssimo em exatas |
| Oficial da polícia | Oito tentativas, até os 30 | Humanas | Humanas eu desenrolo |
A escolha não foi por vontade, foi por cruzamento: janela de tentativas contra habilidade que eu já tinha.
Foi assim que eu escolhi a minha guerra: dentro da minha habilidade, conhecendo as minhas limitações.
O homem não faz o que quer. O homem faz o que tem que fazer.
Quem não veio de família ordeira e organizada tem que selecionar as guerras. A gente não tem muita cartada para dar, e uma jogada errada custa dez anos para voltar ao jogo. Não dá para eu me portar como o cara cujo pai fez a parte dele melhor que o meu. Eu venho da terra devastada. Tem gente que vem da terra construída, e não tem demérito nenhum nisso, é exatamente o que eu quero para o meu filho.
Regra 2: quase ninguém estudou o sistema que diz querer vencer
Vejo muito garoto dizendo "quero ser operacional, quero ir para as Forças Armadas". Filho, você não conhece o serviço que está procurando. A força mais operacional do país é a estadual, porque a estadual é pronto emprego todo dia. As Forças Armadas atuais são vinte anos para uma operação.
Outro chegou dizendo que o sonho dele era ser sniper por causa dos cálculos que a gente faz durante o tiro. Eu nunca fiz cálculo nenhum na hora do tiro. Ou a tabela está no meu celular, ou está colada no meu fuzil, ou está na minha mão. No combate não dá para ficar clicando a luneta, isso é filme. Ele não sonha em ser sniper, ele sonha em ser o sniper do filme, e está baseando a vida numa coisa que nunca procurou entender como funciona.
Conhecer o sistema é o que te diz quais desafios você vai ter que superar, o que você precisa aprender e onde precisa melhorar. Sem isso, planejamento é chute com nome bonito.
Regra 3: intencionalidade distorce tempo
Essa é a que faz a coisa andar.
Minha primeira prova da UERJ eu tirei conceito B praticamente sem estudar, e me achei. Sou um garoto bom, acredito em Deus, já sofri muito, o destino vai me retribuir. Era um idiota. Cumpria as aulas do curso presencial, mas levava a vida trabalhando, me iludindo que só de estar fazendo já estava valendo. Na prova discursiva eu chafurdei. Eram 70 vagas, chamaram 140, e eu fui o trecentos e pouco.
No ano seguinte eu devorei. Mudei a estratégia: ignorei a primeira prova, que toma muito tempo e é ilusão, fui gabaritar humanas e chutar o que eu não sabia de exatas. Passei com conceito C e terminei em 25º.
A prova era a mesma. O que mudou foi a intenção.
Você vai correr 10 km. Pode fazer em duas horas sem vontade, ou botar tesão e fazer em uma. É o mesmo percurso. O quanto de intenção você dedica àquilo distorce o tempo do seu resultado. "Ah, eu paro para estudar, mas fico mexendo no celular." Então ritual e rotina: se você tem problema com o celular, se afasta dele. Hora de estudar é hora de estudar, e é a primeira coisa do dia.
Kobe Bryant dizia que a parte mais difícil de ser atleta não era estar na NBA. Na NBA ele lidava com astros que se conformam, já ganham o suficiente para não precisar trabalhar mais e baixam o rendimento. O difícil foi disputar o draft com gente que só parou de se esforçar depois de chegar lá. A concorrência foi até o último dia.
Nas disputas mais concorridas você compete com o mesmo tesão do outro cara. Quem tem mais intenção no projeto leva. O lobo que está subindo tem fome, porque se ele não pegar aquilo, não vai ter nada. O lobo que já está lá em cima amolece. Essa é a vantagem que eu tenho contra muita gente: eu sempre estou com o estressor de que eu preciso.
Isso não é só motivação para quem gosta de sofrer?
Não, e eu concordo com metade da objeção. Sofrimento sozinho não constrói nada, e é exatamente por isso que existem as duas primeiras regras. Intencionalidade sem autoconhecimento e sem leitura do adversário até funciona às vezes: você consegue reverter na base da força bruta. Só que vai ser muito caro, e caro demais não é estratégico.
Aqui também vale o limite. Se o que você quer é atalho, fórmula ou tapinha nas costas, esse método não serve para você. Eu não tenho macete para vender. O que eu tenho é um processo que eu já percorri e que cobra caro.
O que fazer com isso amanhã
Pega um papel, como eu peguei.
Escreve as suas condições reais: tempo que você tem, quantas tentativas cabem, o que a sua formação te deu e o que não deu. Depois escreve o alvo e o sistema dele: como funciona de verdade, não como aparece no filme. Por último, escolhe a guerra em que as suas condições jogam a favor, e não a mais bonita de contar. Aí você bota intenção, ritual e rotina, e aceita a conta: mil não para chegar num sim.
O seu resultado vai ser derivado da quantidade de nãos que você está disposto a dar.
Quando isso vira conversa dentro de uma empresa
Um artigo mostra o mecanismo. Ele não instala mentalidade em uma equipe, e nenhum texto faz isso.
Se a sua operação está num ciclo em que o erro custa caro, em que a liderança precisa decidir sob pressão e o time trata derrota como fim de linha em vez de informação, é aí que a conversa presencial resolve o que o texto não resolve. Eu levo para o ambiente corporativo o que eu aprendi operando de verdade, e a palestra é montada em cima do contexto da sua equipe, não em cima de frase de efeito.
Solicite uma proposta de palestra e me diga qual é o cenário que a sua equipe está enfrentando.
Sou um bom general, eu não perco minhas guerras.
Eu não estou prometendo. Estou avisando. A gente vai se encontrar no topo.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.