Cultura de Alta Performance
Excesso de vibração mata o combatente: por que estratégia vence força
O time mais motivado não é o mais seguro. A lição que aprendi no fuzileiro, na polícia e em 10 anos montando um plano: força ganha lutas, estratégia ganha guerras.
Gravei este raciocínio me equipando, atrasado, prestes a sair para uma missão. Hoje a missão é de terno. O terreno impõe as regras.
E é exatamente isso que quase ninguém entende quando entra em uma carreira, em uma empresa ou em um projeto: quem escolhe o jogo não é você. É o terreno. Você escolhe a estratégia.
Vou te dizer a tese logo, porque ela é impopular: estratégia vence força, sempre. O seu profissional mais motivado, o que mais vibra, o que veste a camisa e entra em qualquer parede, não é o mais seguro do time. É o mais exposto. Tem uma frase de quartel que aprendi no fuzileiro e vi acontecer na polícia: o excesso de vibração mata o combatente.
Força não é músculo, é capacidade de resolver problema
Eu sempre fui nerd. E tinha uma coisa que eu achava bobagem: o Lex Luthor ser um inimigo à altura do Superman. Inviável, eu pensava. O Superman tem todos os poderes, é aquele boneco que alguém resolveu dar tudo.
Levei tempo para entender que o desenho passava uma mensagem verdadeira. O Luthor tinha mais recursos e explorava a fraqueza do Superman. Pela lógica, ele já teria ganhado em várias situações. Porque estratégia sempre ganha de força.
Pensa em outro exemplo, fora do desenho. Putin está velho. Então Putin é fraco? Não. Ele tem meios, capacidade e influência para causar uma guerra no mundo inteiro. Força não é músculo. Força é capacidade de resolver problema.
Isso muda o que você mede na sua equipe. Você pode ter o melhor soldado do mundo, mas se não tem uma boa estratégia, está perdido. Eu posso te dar uma Ferrari e você perde a corrida, porque falta o resto:
- ter direção;
- saber distribuir recurso;
- saber organizar as táticas;
- saber a hora de perder, a hora de aceitar e de se conformar com algumas coisas.
A força vai te fazer ganhar as lutas, mas para ganhar a grande guerra tu tem que ser estratégico.
Tem uma frase que dizem ser de Alexandre, o Grande, mas pode ter sido de Napoleão ou pode não ter sido de ninguém: eu não temeria um exército de leões comandado por uma ovelha, mas temeria um exército de ovelhas comandado por um leão.
O que a vibração me custou, na prática
Não estou falando isso de fora. Eu era o emocionado.
Cheguei no fuzileiro só com o que eu tinha visto na televisão. Não sabia nem que tinha que estudar. Chegava e era "caraca, tem prova hoje?". Eu achava que era só vibrar: se eu bancar, se eu não desistir, eu formo. As provas não eram de nível absurdo, então, mesmo sendo o idiota que eu era, eu sobrevivi. O normal seria eu me quebrar.
O resultado ficou registrado: saí em 149º de 360. Não que isso seja ruim. Mas eu não tirei um minuto para estudar. Só vibrava. Achava que uma hora ia sair igual filme americano, que eu ia me meter numa porrada, fazer um feito heróico e ser promovido. Balela.
Quando veio a quebra de realidade, entendi que precisava estudar não para virar oficial, mas para estabilizar a carreira. Eu tinha uma ilusão de estabilidade, não tinha estabilidade. Comecei pela ESA, porque algum gênio me disse que era normal fuzileiro passar para a ESA. Não foi normal para mim. Tentei três vezes. Eu era muito iludido.
Se você for muito entusiasmado e pouco estratégico, você tem muita chance de morrer.
Repara no custo real disso: não foram três reprovações. Foram anos de recurso alocado no lugar errado por uma crença que eu nunca tinha testado.
O mecanismo: General e Soldado
Quando parei de acreditar em vibração, precisei de um método. Escrevi um livro sobre isso, que virou meu curso de mentalidade, e um dos trechos se chama General e Soldado.
O princípio é simples de dizer e difícil de manter: você planeja como general e executa como soldado. A hora de pensar, você pensa. A hora de executar, você só executa.
Entende comigo. Às quatro da manhã é difícil você escolher roupa. Você já tinha que ter feito isso antes. Já tinha que ter decidido antes se valia a pena levantar. Eu acordo às 4:40 porque preciso, senão não dou conta do meu dia, e essa decisão não é tomada às 4:40. Ela foi tomada pelo general, com calma, no dia anterior.
Quem faz um bom plano não fica se questionando durante a execução. E a missão do general é vencer, não é ter razão. Se o terreno mudou, se não dá para entrar ali, ele muda o plano e entra por outro lugar.
Escrevi isso de forma empírica, a partir do que eu vivi. Depois fui atrás da ciência para checar se eu não estava falando bobagem, e descobri que Daniel Kahneman ganhou o Nobel dizendo de forma científica algo próximo sobre os dois sistemas de decisão (Prêmio de Ciências Econômicas de 2002). Eu escrevi como acho que a gente tem que dividir a montagem de estratégia; ele mediu.
General · planeja
Soldado · executa
A fronteira entre os dois é dura por um motivo: às quatro da manhã não se escolhe roupa. A revisão do plano existe, mas acontece depois da execução, nunca no meio dela.
Por que o plano de 1% ganha do plano de 80%
A parte que mais derruba plano corporativo não é a falta de ambição. É o excesso.
Não planeje planos absurdos, hipermotivados. Vou dar 80% de mim. Você quebra em uma semana. Meu plano é de 1% por dia. 1% é possível. Em um ano, aumentei 300% do meu rendimento. O cara que foi de 80% deu o tiro três vezes, cansou e acabou. Ele não vai me ganhar.
O mesmo vale para derrota. Eu tenho milhões de derrotas, muito mais derrota do que vitória, em tudo. Reprovei em seis ou oito provas para passar em duas. Mas são pequenas derrotas. Toda derrota que não é a minha morte é psicológica. E a derrota me ensina mais do que a vitória: na vitória eu fiz o que tinha que ser feito e não tenho o que mudar; a derrota me diz onde eu preciso melhorar.
O entusiasmo não vai te levar longe, estratégia vai te fazer ganhar guerra.
Estratégia é como você distribui os recursos da sua vida. Você está cultivando a família, está cultivando o emprego, está cultivando o seu crescimento. É perder aqui de propósito, guardar recurso, e não gastar energia numa batalha que não vale tanto, para ganhar a que vale.
Mas o meu time é excepcional
Essa é a objeção honesta, e eu levo ela a sério. Talvez o seu time seja mesmo bom. O meu argumento não é que gente boa não importa.
É este: se só bom combatente resolvesse, a guerra já estaria ganha. O BOPE tem excelente combatente. Tem cara com apelido de Senhor da Guerra, disputando isso há 40 anos. Se lá estão os melhores e nem eles ganharam a guerra, o que falta não é mais força. É estratégia.
E olha o inverso, que é a parte esperançosa: você pode me dar qualquer tropa. Me deixa três meses com ela e eu faço esses moleques entrarem em qualquer terreno. Tática vence força. Isso significa que time comum com boa estratégia bate time excepcional sem plano, e isso é uma notícia muito boa para quem gerencia gente real.
Só não se sinta especial demais. É um erro comum do moleque que veio de vida difícil e, por estar vivo aos 20, se acha único. Eu entendo, porque às vezes é só isso que sustenta a pessoa. Mas não se cegue para a realidade: tem gente que já chegou na frente porque veio de uma condição melhor. Eu não posso jogar com a carta dos outros. O meu jogo é esse, e para eu vencer vai me demandar mais tempo, mais esforço, mais trabalho, mais dedicação.
A tradução para a sua operação
Três perguntas que eu faria se entrasse na sua empresa amanhã:
- O que a gente está medindo, esforço ou resultado? Se o reconhecimento interno premia quem vibra mais, você está treinando o time para o afobamento. Caçador afobado volta com fome. Combatente afobado morre.
- Onde está o general e onde está o soldado? Se as decisões estão sendo tomadas no meio da execução, sob pressão, você não tem plano, você tem improviso com uniforme bonito.
- Qual batalha a gente vai perder de propósito neste trimestre? Se a resposta é "nenhuma", não existe estratégia. Existe uma lista de desejos.
Comigo levou 8 anos o primeiro processo: estabilizar a carreira, virar oficial, conquistar estabilidade para prover a família, e só depois ir fazer o que eu queria. E em 2015 eu e minha esposa definimos um objetivo de vida que demorou quase 10 anos para acontecer. Passei esses 10 anos montando estratégia, montando o jogo, ouvindo "tu é maluco de fazer isso". Ganhei batalhas que ninguém via. Quando juntou tudo, eu ganhei.
Onde o texto para e a conversa começa
Um artigo mostra o mecanismo. Ele não instala o mecanismo dentro de uma equipe que já está no meio de um ciclo apertado, com meta em cima e gente cansada.
Se a sua empresa está no ponto em que o erro custa caro, em que o time confunde entusiasmo com preparo e a liderança está decidindo no calor da execução, é aí que a conversa presencial resolve o que o texto não resolve. É esse conteúdo que eu levo para dentro das empresas: mentalidade de operações especiais aplicada a gente comum conquistando objetivo, com o que eu vi funcionar e o que eu vi matar.
Solicite uma proposta de palestra. Você me diz o momento da sua operação e eu te digo se o tema serve, e se não servir eu falo isso também.
Estratégia sempre vai vencer força. Eu sou paciente. E é só o começo.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.