CADAR. PALESTRAS Solicitar proposta

Mentalidade Imperturbável

Não seja reativo, seja estratégico: o que a reação custa, medido em dinheiro

Major Ronald Cadar explica por que reagir desliga o raciocínio lógico, quanto custa uma reação de dez segundos e as quatro perguntas que ele usa para não perder o foco no meio do caminho.

São três horas da manhã e eu estou gravando. Tive insônia, e em vez de rolar na cama eu peguei a insônia e transformei em material.

Isso já é a aula inteira, filho. Eu não fico falando, eu mostro com exemplo.

E o que eu vim falar é o seguinte: foco não é saber onde quer chegar. A gente sempre acha que é. Foco é aprender a negar todas as coisas que te tiram do caminho. E ser reativo é uma das coisas que mais tira a gente do caminho.

Por que reagir não é força, é a forma mais cara de perder tempo

Você está indo para uma coisa e, por instinto, reage a certos comportamentos. Reagindo, você se desvia do objetivo.

Repara no exemplo mais banal que existe. Você foi para a faculdade pegar o diploma, porque precisa do diploma para exercer uma função que te ajuda no objetivo final. Chega lá e discute com o professor, discute com os caras da turma.

Ah, mas eles estão errados. Eu sei e eu concordo. Mas ali, qual é o seu objetivo? O seu objetivo é o diploma. Então não se desvia disso.

Na época em que eu estudava para oficial, você podia me humilhar que eu ia engolir o sapo. Mesmo sabendo jiu-jitsu, mesmo já tendo quase 90 kg. Eu não ia brigar, eu não ia perder meu tempo. Porque eu sabia do meu objetivo, e sabia que teria pesquisa social. Qualquer briga, qualquer coisa que eu fizesse podia atrapalhar.

Cara, mas ele te desonrou, te desrespeitou. Pode ser tudo verdade. Mas qual é o meu objetivo? É provar para esse cara que eu estou certo? Isso é ego, filho. Meu objetivo é chegar onde eu quero.

A cena que me ensinou isso, na época em que eu era o mais fraco

Todo mundo tinha medo do meu pai. Meu pai era um cara muito violento. Teve uma época em que ele caiu de moto e quebrou a perna, ficou com parafuso e placa, aquilo que a gente chamava de antena de TV trincada no pé. Meu pai não saía de casa. Era eu trabalhando para bancar as coisas.

Nessa época, um moleque bem mais velho que eu jogou o cavalo da bicicleta em cima de mim quando eu vinha pedalando. Eu quase caí. Era um cara com quem eu nunca tinha tido problema, eu sempre fui moleque educado, nunca fui respondão. Perguntei o que tinha havido. Ele disse que não gostou não, que era para eu chamar meu pai. O moleque tinha medo do meu pai por alguma desavença, e em vez de tirar essa satisfação com ele, foi tirar comigo.

Eu agasalhei. Eu era mais fraco. Fazer o quê.

Alguns anos depois eu fiquei mais forte que ele. E nunca voltei lá para devolver aquele esculacho, aquela ameaça, aquele desrespeito. Esbarrei com o moleque faz uns dois, três anos, e a única coisa que eu fiz foi falar: irmão, tu me desrespeitou quando eu era mais fraco, agora tu não chega perto de mim, não.

E olha como está a vida do cara. Moído, cheio de problema de saúde, vida complicada. A vida tratou ele. Eu não precisei voltar.

Um cara que é covarde, um cara que é idiota, um cara que não busca a verdade, ele naturalmente vai ser cobrado pela vida, porque isso ele vai fazer também em outras áreas da vida.

O mecanismo: por que a reação te deixa burro, literalmente

O Goleman, no livro Inteligência Emocional, fala do sequestro da amígdala. Foi um dos primeiros livros que eu li e virou base para eu estudar vários outros.

A tua amígdala vai oscilando conforme você fica estressado. Quanto mais ela oscila, mais ela sobe o teu cortisol. Quando bate o pico, acontece o sequestro: ela anula o teu córtex e você passa a agir de forma instintiva.

O córtex é a parte de raciocínio lógico, memória, dedução. É a parte racional do teu ser, é o que dá o nosso viés não animalesco. Quando a amígdala sequestra, ela corta o contato com o raciocínio lógico e concentra tudo no que é necessário para sobreviver. Ela te dá mais força e mais velocidade, e te deixa burro.

Todo mundo estressado fica burro. Teu córtex vai ficando mais fraco para o teu instintivo ficar mais forte.

Era exatamente isso que o Muhammad Ali explorava. Ele provocava os adversários, os caras perdiam o controle, perdiam a técnica, zeravam a estratégia, gastavam mais energia do que podiam no começo da luta. Do meio para o final, o Ali arrebentava.

Quando você deixa alguém te tirar do sério, você não vira mais forte. Você vira mais previsível.

Você age como alguém que te provocou queria que você reagisse. Você virou um escravo. O cara que não se domina, ele é um escravo da circunstância.

Quanto custa: a conta que ninguém faz na hora

O cara bateu no seu retrovisor. Você vai lá, mete a mão na arma e bota a arma na cara do sujeito. Alguém filma, e aparece um policial descontrolado sacando arma em briga de trânsito. Acabou a carreira.

Mas ele quebrou meu retrovisor.

R$ 200o que vale o retrovisor
R$ 8.000o salário que a carreira pagava
90%do que você conquistou, posto na mesa
10%o tamanho do que você foi defender

Você trocou os oito mil da sua carreira por um retrovisor. Parabéns.

Não troque 90% do que você conquistou por 10%. É uma troca burra. Só que na hora da reação você não tem raciocínio lógico, e é isso que vai te arrebentar.

Teve um garoto que estava numa reunião. Ele sabia que o dono da empresa era muito amigo do gerente, e mesmo assim mandou o gerente tomar naquele lugar, dedo na cara, xingou, falou que o cara era um merda. No dia seguinte foi demitido. E veio me dizer: mas o cara cometia injustiças, eu tive que fazer alguma coisa.

Não, você não teve. Você quis.

As quatro coisas que você precisa ter na cabeça

Toda vez que você estiver numa missão, é isso que decide se você chega ou se perde no deserto.

1. ObjetivoPor que eu estou nessa missão? Por que você está no seu casamento, no seu trabalho, estudando? Onde você quer estar daqui a cinco anos?
2. VirtudeQual é a virtude de cada porquê. Faculdade, o diploma. Emprego, o salário. Relação, harmonia e família. É a mediana de Aristóteles: entre o excesso e a omissão, o caminho do meio.
3. Como eu vençoNão como eu ganho a discussão. Eu estou aqui para discutir ou eu estou aqui para vencer? Como é que eu venço isso?
4. SoluçãoOlhe para as soluções e não para os problemas. A pedra já está ali. O que tira a pedra do lugar é você contornar ela.

A ordem importa. Sem o passo 1 definido, o passo 3 vira briga, porque vencer passa a significar ter razão.

Um seguidor me contou que uma professora começou a implicar com ele depois de uma discussão ideológica. Minha primeira pergunta foi: o teu objetivo na faculdade é discussão ideológica?

Ela está errada, irmão, eu sei. Mas agora você tem um problema real: a professora não entrega mais a matéria, não tira mais as suas dúvidas. Meu foco tem que ser o quê? Eu quero vencer. Eu não vou focar no problema, senão eu fico reativo.

Você dá de cara com uma pedra no meio do caminho. A pedra já está ali. Não adianta divagar sobre por que a pedra está ali, como ela veio parar aqui, que ela não deveria estar. Isso não importa mais.

O normal das pessoas é querer confrontar a pedra. Está brigando com a pedra, filho. Não vale a pena. A solução é contornar, é pegar uma corda, é voltar para fazer outra trilha. No caso do garoto: estudar por fora, montar grupo de estudo, mudar de sala.

Numa troca de tiro existem três tipos de pessoa

Essa parte não é metáfora. É o que eu vi.

  • O sonhador. Fica no "eu podia ter ganhado na mega-sena", "o mundo podia ser diferente". Ele está sonhando enquanto o problema acontece.
  • O advogado de regras. "Isso está errado, a lei não permite que esse cara tenha fuzil, o governador devia ter dado o blindado para a gente e não deu." Ele busca na regra uma solução. Também não vai te salvar.
  • O que joga com o que tem. A realidade é essa. O sonho não se realizou. Me dá a munição de vocês que eu tenho que trocar tiro.

O jogo, filho, é jogado. O "como eu queria" e o "como deveria ser" não resolvem o jogo. Isso eu posso até tentar construir, mas hoje eu tenho que jogar com o que tem.

É quando você chega em casa e sua mãe fala: tem arroz, feijão e farinha. É o que tem. Ah, mas as regras sanitárias dizem que eu tenho que comer duas mil calorias. Você abre a geladeira, está vazia, é o que tem. Ou você joga com isso, ou passa fome e faz acontecer para amanhã ter alguma coisa mais.

A objeção honesta: engolir sapo não é covardia?

É a pergunta que sempre vem, e ela merece resposta direta em vez de discurso.

Primeiro: eu não estou te proibindo de nada. Vou falar igual o Major Maldemar falava para a gente quando a gente perguntava coisa idiota. Ele era um caveira muito bravo, foi de soldado a Major no batalhão, e era um cara muito sábio.

Eu não tenho pena de mim, que dirá dos outros. Se tu quiser fazer, vai lá e faz. Agora, quando sentar na hora das consequências, mata no peito que nem homem e diz que fez porque quis.

Quer sair na porrada no trânsito? Sai. Quer mandar o melhor amigo do teu chefe tomar naquele lugar? Vai. Mas quando bater a consequência, não fica culpando os outros para justificar. Porque quando você botar no papel, você vai ver: fez por reputação, por ego, por vaidade, porque queria impressionar as pessoas. Não fez pelo objetivo que você mesmo programou.

Segundo: engolir sapo tem nome dentro da corporação. Um comandante meu dizia que trabalhar com autoridade é trabalho de engolir sapo, porque às vezes você pega uma autoridade vaidosa que não aceita a sua assessoria e depois te culpa pelo resultado. Ele chamava isso de estômago de pântano. Toda hora entra mais um sapo no pântano.

Ele está errado, irmão. Está. Mas ele paga o salário, eu quero o salário, eu aturo.

E a estratégia que importa é a estratégia que vence.

Como eu escolho o que me afeta

Existe uma frase do Marco Aurélio de que eu gosto muito: você tem poder sobre a sua mente, mas não sobre os eventos. Entenda isso e se torne forte.

Isso chama dicotomia do controle, e é um princípio histórico. Só existem duas coisas no mundo: as que eu controlo e as que eu não controlo. Eu controlo os meus pensamentos e as minhas reações. O resto, não.

Ah, mas eu não consigo me controlar quando fico com raiva. Claro que consegue. Se fosse alguém que você não pode contrariar de jeito nenhum te xingando, eu tenho certeza que você se controlaria. Você se deixa descontrolar com facilidade, e de tanto fazer isso ficou normal.

E tem o Epicteto, que era o escravo que dava aula: não são as coisas que nos perturbam, mas as nossas opiniões sobre elas.

Ontem mesmo. Eu tinha dois fones, perdi um na casa da tia da minha mulher em Minas e comprei outro, que chegou ontem. Meu filho pegou o fone velho, o que eu uso para treinar, e conseguiu tirar a espuma de um jeito que eu não consigo mais botar de volta. Na hora me deu incômodo, porque eu associei tudo: é o fone que eu uso, eu ainda não tinha aberto a caixa do novo, agora estou sem fone para treinar. Comecei a querer ficar puto com o meu filho.

Aí eu dei uma respirada. Ele não tem noção do que está fazendo. Ele é uma criança, ele não tem córtex. Ele tentou pegar o fone para me dar, na melhor intenção. Falei: poxa, filho, cuidado com as coisas do papai. E ele: papai, desculpa, não vou fazer mais.

Não foi o fone que me deixou puto. Foi a opinião que eu tinha sobre o fone. Se eu deixo essa opinião me afetar, eu brigo com o meu filho por uma coisa que vale muito mais do que um fone.

O truque é conversar com a sua mente para quebrar o automático. Quando acontece um evento, o cérebro é rápido e já imprime uma emoção sobre ele. Mas a sua mente não sabe o que é verdade e o que é mentira. Você pergunta: o quanto isso atrapalha a minha vida? Isso realmente é um problema? Eu realmente tenho que entrar nessa briga?

Por que, onde e como. Por que eu tenho que fazer isso? Onde isso vai me levar? Como é que eu resolvo isso? Só de perguntar, você já tira a mente do piloto automático.

O que eu não falava para ninguém

Tem uma parte disso que é sobre boca fechada, e ela é pouco confortável.

Meu objetivo era passar na prova de oficial da polícia. Eu sou de um tempo em que a polícia não era bem vista como hoje. Não existia rede social, não tinha nenhum filme Tropa de Elite ainda. A imprensa só batia. E a minha própria família teve experiências negativas com a polícia antes de eu ser militar.

Valia a pena eu falar que ia ser policial? Não. Porque toda vez que você tentava falar uma coisa dessas, vinham vinte, trinta pessoas tentar te convencer do contrário. E aí eu ia entrar no embate para explicar que aquele caminho me daria a possibilidade de impor a minha virtude e dar uma condição melhor para a minha família. Você se desgasta falando com uma pessoa que não tem os mesmos motivos que você.

Então, quando me perguntavam, eu falava que estava estudando para bombeiro. Bombeiro todo mundo acha maneiro, é o nosso homem-aranha do bairro, ele vem para salvar. Polícia vem para atrasar, fiscalizar, cobrar. Depois eu passei a dizer que estudava para o vestibular de direito, que era uma coisa que todo mundo fazia. Eu ficava no rebanho, ninguém me incomodava.

Quando eu passei, veio a pesquisa social bater na porta e meu pai perguntou: você passou para a polícia, como é que você não falou nada? Nem ele sabia. Só a minha mãe e a minha namorada.

Os amigos mais próximos, que me viam estudando e queriam o caminho, esses eu contava. Mas de ficar falando para todo mundo eu não perdia tempo, porque não era o meu objetivo. Convencer os outros era o meu objetivo? Não. Meu objetivo era passar.

Quando você sobe, o ataque é o normal

Ainda mais quando você desponta em crescimento: você causa dissonância no ambiente. É natural que as pessoas te ataquem e te desmereçam. Quem está em cima não quer que você suba, quem está embaixo quer que você fique mais embaixo.

Quando você sobe, você mostra para o cara que está no seu nível que daria para ele ser melhor. E chega para o que está lá em cima dizendo: eu também sou bom.

Nego só vai aturar a sua vitória quando for impossível te derrubar.

Eu passei na primeira prova de delegado, uma prova que eu sempre achei difícil para caramba. Sabe o que veio? "Deu sorte, hein, irmão?" O moleque já sabe das dificuldades, por que eu vou botar mais peso? Eu prefiro ter amigos mais fortes e melhores que eu. Se eu sou amigo de um moleque mais forte, eu também sou forte. Mas isso é maturidade, e no geral as pessoas são vaidosas e acham que ficam mais fortes deixando os outros para baixo.

Então não conte com admiração. Conte com estratégia.

A prova mais cara que eu tenho disso

No meu curso de formação, ganhando R$ 600, meu pai morreu. Faltavam quatro meses para eu formar. Minha mãe pegou pesado comigo, não por culpa, mas porque ela também estava frágil.

Eu quase tranquei a academia de oficiais. Olhando só para o problema, eu estava a ponto de fazer isso, porque eu estava ficando reativo ao nervosismo da minha mãe. E isso arrebentaria a minha vida inteira: em vez de faltar quatro meses, ia voltar a faltar um ano.

A reação não é lógica, não é estratégica.

Olhei para a solução. Eu tinha que bancar aqueles quatro meses. Meu salário não dava conta das contas da minha mãe. Peguei um empréstimo de R$ 4.000 ganhando 600, parcelei em 36 vezes, e fui pagando. Contei que em janeiro entrava o salário cheio, que na época era R$ 1.600, o dobro do que eu ganhava, e aí eu conseguiria pagar melhor as contas.

Foi o que eu fiz. Banquei os quatro meses. E eu devo muita consideração aos meus amigos de apartamento, porque depois que meu pai morreu eu perdi o tesão de fazer as coisas. Tinha prova no dia e eu não tinha vontade de estudar. Meus amigos que me carregavam. Eu ia conseguir concluir de qualquer jeito, mas provavelmente ficaria com matéria pendente. Não fiquei com nenhuma.

Estratégia não é frieza. É saber que o objetivo continua valendo mesmo no pior mês da sua vida, e aceitar ajuda para chegar lá.

O mar é a vida, você é o seu barco. O que afunda não é a água que está em volta, é aquela que entra no barco.

O resumo, em duas frases

Saiba quem você é e onde quer chegar, e aja conforme a sua estratégia.

Você chega aqui e me provoca. O quanto me ajuda ou me atrapalha perder tempo com você? Não me ajuda em nada, e ainda me faz perder tempo. Então eu não perco tempo com você. É assim que um cara calculista se movimenta.

Eu traço linhas. Se passar dessa linha que eu montei na minha cabeça, eu faço tal coisa por proteção, e tem justificativa. Se não passar, eu aturo.

E é isso que sustenta a maratona. Hoje você está no alto da montanha e acha que é o cara. Daqui a pouco você repara que a sua montanha é pequena e que todo mundo já te passou, porque você viveu a vida com dispersão, se anestesiando, se perdendo nos processos, arrumando brigas não necessárias.

Decidir não é querer tudo, é abrir uma porta e fechar todas as outras.

Cada vez que você não desperdiçou energia, você ganhou ponto para a sua estratégia. Você abnegou o teu impulso. Você virou um cara que domina a si.

Se a sua equipe é competente e mesmo assim reage

Um artigo entrega o mecanismo. Ele não entrega a conversa difícil que a sua liderança vai ter na segunda-feira.

Se você olha para um time qualificado que trava, briga com a pedra, gasta reunião discutindo de quem é a culpa e chega no prazo sem o objetivo, o problema não é técnico. É reatividade, e reatividade tem mecanismo, tem custo mensurável e tem treino.

É esse recorte que eu levo para dentro de empresa: como decidir sob estresse quando o córtex está sendo sequestrado, como separar o que se controla do que não se controla e como fazer um time inteiro escolher a solução em vez do confronto.

Solicite uma proposta de palestra e me diga em uma linha qual é a pedra que está no caminho da sua equipe. Eu respondo com o formato e o escopo que fazem sentido para ela.

Não é a água em volta que afunda o barco, filho. É a que você deixa entrar.

As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.