Cultura de Alta Performance
O curso não forma mentalidade, ele filtra: o que operações especiais ensina sobre contratar gente boa
Major Ronald Cadar explica por que o brevê no peito não prova nada, o que é superioridade relativa e por que habilidade se constrói em dois meses e mentalidade não se constrói nunca.
Gravei esse raciocínio indo para o trabalho. O dia foi corrido: levei meu filho na creche porque minha esposa tirou plantão noturno. Só tem eu e ela, então a gente se desdobra na missão.
No grupo dos apoiadores alguém perguntou qual é o curso que se faz para entrar numa unidade nova de operações especiais. É a pergunta natural, filho. Você olha o retrato pronto e valoriza o que está pronto: o brevê no peito, o nome da unidade, o resultado já consolidado.
Só que nada começa assim. E é aqui que mora a coisa que eu quero te entregar hoje: o curso de operações especiais não forma mentalidade, ele filtra. Se você é um bundão e conseguiu passar nos filtros, você vai continuar sendo um bundão, com brevê no peito.
Por que operações especiais existe, e o que isso tem a ver com a sua empresa
Antes de falar de gente, precisa entender a missão. Operações especiais não é infantaria. Infantaria resiste posição. Operações especiais é feita para chegar rápido, causar grande dano e extrair.
O nome disso é superioridade relativa, e ela tem três componentes: surpresa, alto impacto e curto tempo. Você não vence porque é maior. Você vence porque escolheu o ponto, a hora e a saída.
E o segundo pressuposto muda tudo: esse cara trabalha atrás das linhas inimigas. Quem luta atrás da linha inimiga não tem a quem pedir socorro. Ou ele vence ou ele morre.
É por isso que o operador tem que ser multitarefa. Alta coragem, alta perícia, múltiplas habilidades, flexibilidade no terreno. O curso do BOPE tem 21 semanas, e cada semana é um módulo:
- montanha
- mergulho
- salto
- direção defensiva
- etiqueta
- luta
- tiro
- patrulha
- planejamento de operações
- liderança
É um pacote gigante exatamente porque não vai ter apoio chegando.
Repara na tradução para o seu contexto: toda vez que você monta uma equipe que vai operar sem retaguarda, longe da estrutura, decidindo sozinha, você está montando uma célula de operações especiais. E o critério de seleção dela não pode ser o mesmo do resto da casa.
Nada começa consagrado: a história que quase ninguém conta
O BOPE não começou sendo batalhão de caveira. Não começou sendo os caras de preto que você conhece. Começou lá atrás, com os pioneiros.
A doutrina de operações especiais se consolida primeiro fora do Brasil, com as tropas de comandos que operavam atrás das linhas na guerra. (Aqui eu preciso ser honesto: no vídeo eu falo as siglas estrangeiras de cabeça e elas saem embaralhadas, então trate os nomes como lacuna a confirmar, não como fato.) O pressuposto era duro: eram pessoas que tinham que estar dispostas ao que ninguém está, vencer a morte. Era normal ter um pequeno cemitério ao lado da companhia, porque as pessoas morriam durante o curso. Tem marcha no gelo que é absurda, e às vezes a pessoa não resistia.
Depois da Segunda Guerra a guerra muda de forma. Vira guerra de guerrilha, tropas menores, emboscada. A lógica é a mesma superioridade relativa: dizia-se que um grupo de guerrilheiros valia por vinte soldados regulares. Aí operações especiais passa a ser voltada para a guerra irregular.
No Brasil isso entra pelo Exército, por um centro de instrução de selva, e vira módulo de contraguerrilha, que depois se desmembra e ganha autonomia. Boa parte desse conhecimento veio de intercâmbio: quem foi para a Segunda Guerra fez amizade, e o network fez a tropa ser enviada para se formar fora. Tem brasileiro formado nesses cursos ainda na década de 50. (As siglas exatas dessas unidades e do curso ficam como lacuna: eu mesmo digo no vídeo que não lembro o nome completo.)
Na década de 70 dois nomes fazem a doutrina virar unidade policial: o coronel Amêndola, que é o fundador e escreveu a doutrina, e o coronel Paulo César Bichão, um dos maiores implementadores dela. Amêndola sofreu um acidente e escreveu a doutrina no tempo em que ficou parado. Depois de um episódio em que voluntários do choque tentaram fazer uma entrada tática e foi um desastre, ele apresentou a doutrina e foi aceito criar uma companhia de operações especiais dentro do choque.
E olha a resistência que existia: não era tolerado polícia no mundo inteiro desenvolver capacidade de operações especiais. Por quê? Porque existe feudo entre instituições e existe muita vaidade. Conhecimento é poder, e as pessoas querem restringir o poder. Eu acho isso errado, porque a nossa missão deve ser proteger a sociedade, não ter poder. Mas essa é a realidade, o jogo é esse, tem que jogar com o que tem.
O que quebrou a resistência foi tragédia. Houve um atentado durante as Olimpíadas de Munique e a resposta policial foi desastrosa. Aí entendeu-se que era preciso ter, pelo menos para entrada tática e situação com refém, gente treinada acima do padrão para fazer o que os outros não têm tática para fazer.
A característica do pioneiro não era ter curso, era voluntariedade
Essa é a frase que eu quero que você leve: a característica dos pioneiros não era ter curso, era voluntariedade.
Eles foram criticados. Foram menosprezados. Eram mal vistos. Ninguém levava a sério. E mesmo sem curso, eles tinham comprometimento e mentalidade de combatente, e aceitaram a proposta de ser operações especiais.
Ser quando tudo já é consagrado é maneiro. Mas ser quando ninguém espera nada de você, isso é mentalidade de operações especiais.
Eu sei o quanto é difícil ser pioneiro numa missão, porque eu vi o BOPE ser tratado assim. Por isso eu não defendo diploma, filho. Eu defendo resultado e defendo mentalidade. O diploma pode ser um balizador. A caveira no peito pode ser um balizador. Mas põe no jogo o que tem de resultado e o que tem de mentalidade.
Tem um detalhe que quase ninguém repara: numa força que é obrigada a estar na rua, o cara tem muito mais chance de ser operacional. Nas estruturas que não são obrigadas a operar sempre, existe muita margem para o sujeito nunca operar, ficar na panela, passar batido e só carregar o título. Então quando você vê alguém dentro dessas estruturas tomando a iniciativa de ir operar, de criar uma capacidade que não existia, esse cara está acima da média. Isso deve ser muito respeitado.
Quando dá merda, filho, ninguém quer saber quem era o previsto. Nego quer saber quem podia fazer e não fez.
Traduz isso para dentro da sua empresa e você tem um critério de avaliação melhor do que qualquer currículo: quem, aqui dentro, se voluntariou para uma missão que não era obrigação dele e que ninguém garantiu que ia dar certo?
O que o curso testa não é o que a rua testa
Você forma, e aí começa outro curso.
Porque você vai para a pista e vai ser testado. E a tropa te testa. Não é por mal, não é babaquice. É porque a tropa precisa saber quem é o líder dela, já que vai ter ordem sua que, se for dada errada, mata eles. Então os caras chegam resistentes. E você tem que provar, até alguém olhar e falar: realmente, dá para confiar nesse cara.
Eu estava segurando um serviço que não era meu, do Vangelis, que coordenava. Ia ter operação e eu fui. Você escolhe uma das patrulhas e normalmente vira o comandante dela. Eu fui na do Pimenta, caveira de 2005, excelente combatente.
O Pimenta chega e fala: chefe, tranquilo, tem um caminho ali, a gente vem por um lado que os caras não sabem que a gente vem. Pensamento de operações especiais, fora da caixa. Beleza. Aí eu estou vindo com ele e ele: não tem nada, meu irmão, não tem nada. Daqui a pouco a gente mete o pé fora do mato e nego salgou a gente. Pula para um lado, pula para o outro. Pimenta, tu falou que não tinha nada. "Meu chefe nunca tem nada." É a máxima do Pimenta.
Reorganiza a patrulha, três por ali, duas por aqui, passamos. Passamos por uma casa e uma moradora botou a cara: costumam ficar nessa casa aqui do lado. E fechou a porta.
Para aqui um segundo, porque isso é doutrina e não gentileza. 99% dos moradores não têm nada a ver com tráfico. Eles moram ali, eles têm que tolerar, mas eles não gostam. O morador médio trabalhador é o que mais sofre: o funk arrebenta ele para dormir, ele tem que trabalhar no dia seguinte, os caras arrumam confusão, ele não consegue sair de casa e o patrão demite. Então trate todo mundo com educação e respeito. O João Novo falava isso e é a maior verdade do mundo. E repara que foi exatamente a educação com a moradora que gerou a informação que mudou a operação.
Falei: bora entrar. O Pimenta testou a porta, maceteou, e eu entrei. Quando entrei, saiu um moleque de pistola, olhão desse tamanho. O fuzil travou. Com o tiro vindo ainda.
Quando eu fatiei de novo, ele não estava mais em postura de combate. Meus dois tiros pegaram, calibre 762, e ele não caiu. A gente socorreu, mas ele não resistiu.
O que essa cena prova não é coragem. Prova que o equipamento falha, que a informação vem de onde você não planejou, e que a única coisa que continua funcionando quando o resto trava é o que o cara pensa. É isso que curso nenhum instala.
A objeção honesta: então treinamento não serve para nada?
Serve, e serve muito. Só que ele resolve a metade fácil.
Eu já coordenei curso, eu sei como se constrói. Me dá qualquer tropa: em dois, três meses eu deixo no aço. Eu transformo qualquer um em operações especiais, mole. Eu posso arrumar brevê para todo mundo.
Só tem uma condição, e ela não é minha: só preciso que o cara seja imbuído. Se for imbuído, qualquer um eu faço. A habilidade eu construo. A mentalidade eu não consigo construir, filho. O cara tem que ter esse ímpeto, essa vontade de jogar o jogo.
E o filtro é esse:
- alguns só querem o título
- alguns só querem a fama
- alguns querem recompor identidade fragilizada
Eu comecei a entender que poucos serão caveira e nem todos terão a mentalidade de operações especiais.
A caveira não vem para completar a sua fragilidade, ela vem para mostrar que você é forte. Mas você tem que ir testar, tem que ir para o terreno.
Eu falo isso com o custo já pago. Recebi uma bravura vinte dias antes de uma promoção, e aquilo virou piada. Falaram: tu ganhou uma bravura de vinte dias, que bravura é essa, vale de nada. Eu não fiz o que fiz esperando bravura. Eu fiz o que achei certo. Eu não queria bravura, eu queria ser caveira, e a única coisa que me importava era que aquilo não atrapalhasse minha formação.
Também não vou vender que eu sou o cara fácil de conviver. Eu brigo para cima e brigo para baixo, sempre briguei, está na ficha. Hoje eu não seria tão imaturo. Mas eu sou o que sou para todo lado.
O que você faz com isso na segunda-feira
Três movimentos concretos, e nenhum deles custa orçamento:
Pare de comprar retrato pronto. Currículo, certificação e nome de empresa grande no crachá são balizadores, não são resultado. Pergunte pelo que a pessoa fez quando ninguém esperava nada dela.
Mapeie os voluntários. Quem levantou a mão para a missão que não era obrigação e que podia dar errado? Esse é o seu quadro de operações especiais, tenha ele curso ou não.
Desenhe para superioridade relativa, não para força. Se você está tentando ganhar por volume, você está fazendo infantaria. Escolha o ponto, o momento, o impacto e a saída: surpresa, alto impacto, curto tempo.
E a régua final, para você usar em toda contratação e toda promoção: técnica o curso dá. Mentalidade o cara traz de casa e aperfeiçoa no terreno. Todo mundo pode ter mentalidade de operações especiais na vida cotidiana, em qualquer missão, mas tem que pensar como esses pioneiros pensaram.
mentalidade
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As duas dimensões são independentes, e o curso só mexe na horizontal. A habilidade eu construo. A mentalidade eu não consigo construir, só filtrar.
Se o problema da sua equipe não é técnica
Um artigo mostra o mecanismo. Ele não coloca a sua liderança na pista, e é na pista que a tropa decide se confia em quem manda.
Se você está olhando para um time cheio de gente qualificada que mesmo assim trava quando a informação falha, o problema não é treinamento técnico, é mentalidade. É esse recorte que eu levo para dentro de empresa: como operações especiais seleciona, como constrói superioridade relativa e o que fazer quando o fuzil trava.
Solicite uma proposta de palestra e me diga em uma linha qual é o terreno da sua equipe. Eu respondo com o formato e o escopo que fazem sentido para ele.
Brevê não é nada, filho. Mentalidade de operações especiais é tudo.
As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.