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Cultura de Alta Performance

O ambiente sempre vence: por que a sua ideologia não pode diminuir a sua capacidade estratégica

Major Cadar explica por que o ambiente molda a pessoa mais do que a intenção dela, e por que estrategista que decide pela própria convicção perde antes de começar.

Eu ocupei comunidade. Fiquei lá de manhã, de tarde e de noite, dormia lá. E foi ali, vendo aquilo todo dia, que eu entendi uma coisa que hoje eu falo em qualquer lugar: o ambiente sempre vence.

Não é frase bonita. É observação de quem ficou dentro. A pessoa média naquele lugar vai ser exposta a violência, tráfico, promiscuidade, egoísmo, criminalidade. E ela vai começar a achar aquilo normal. Porque o humano, filho, ele se soma ao ambiente dele.

Eu fiz um vídeo dando uma sugestão estratégica para o Rio de Janeiro e um seguidor me criticou. Ele disse que não concordava, que a gente tem que ter menos estado, que a gente tem que fortalecer a família. Eu entendi o ponto dele. Eu já fui de várias correntes políticas, então eu conheço aquele raciocínio. E a resposta que eu dei para ele é a tese deste texto: você não pode deixar as suas ideologias diminuírem a sua capacidade estratégica.

O que "o ambiente vence" quer dizer, na prática

Uma criança não tem neocórtex formado, não tem pré-frontal pronto. Ela está construindo o límbico dela e o mapa de crença dela. Se ela for mal influenciada já na fase de construção, isso vai resultar lá na frente. É causa e efeito. Não tem o que fazer.

Então repara: se você gerencia mal, se você doutrina mal, aquilo dá problema depois. Não é maldade individual. É formação.

E é por isso que eu digo que essa criança vai ser moldada pelo que aquele ambiente entrega. E o que aquele ambiente entrega é corrupção e destruição.

O tripé que forma o mapa de crença

Eu trabalho com três correntes que formam a ética de uma pessoa em formação: cultura, família e religião.

Cultura. Você não vê uma música de funk falando "vamos trabalhar, vamos fazer acontecer, vamos ter dedicação". Fala de arma, fala de droga, fala de prostituição. E isso viraliza, o rapper ganha dinheiro, a comunidade se afunda. Cada um está pensando no que é melhor para si. Platão já dizia que quando a cultura não é bela, ela corrompe a sociedade.

Família. Existem famílias estruturadas, mas você vê muita criança largada. Uma mãe com cinco, seis crianças e nenhum pai ali. Quando aparece, aparece de vez em quando e dá um dinheiro.

Religião. A geração de 60, 80 para cá foi incentivada a se afastar da religião. Comportamento nocivo tem em todo lugar, inclusive na escola, mas só se fala do padre, só se fala do pastor. Isso é propaganda para te afastar. Você pode ser ateu, pode ser agnóstico, pode ser o que você quiser. O que você não pode ser é burro a ponto de ignorar um livro que perdura há mais de dois mil anos e reconta quase doze mil anos de história.

O efeito tempo já testou. E se isso continua é porque ali tem conhecimentos bons.

Agora a parte que interessa a quem cuida de gente: um desses tripés bem alinhado ajusta os outros. As famílias que eu via constituídas dentro daquele ambiente, no geral, eram as que tinham algum viés evangélico. A mãe evangélica, pela força da religião, conseguia construir uma família mesmo ali dentro. Era nítido. Os filhos dentro de casa ou indo para a igreja.

Se um pé sustenta os outros, os três quebrados derrubam qualquer um. E numa comunidade dominada por facção, os três estão quebrados ao mesmo tempo.

Onde isso encosta em cultura organizacional

Eu não estou falando só de comunidade. Estou falando do mecanismo.

Repara no que acontece na escola dentro da comunidade: o professor não pode nem chamar atenção de um comportamento não ético. Ele tem medo. Ninguém fala alto com o filho de traficante. O garoto faz o que quer na sala e ninguém vai ensinar para ele que aquilo é errado, porque quem ensinar não volta amanhã.

Repara no que isso produz: a regra existe no papel e não existe na prática. E quando a regra não é sustentada, o ambiente ensina o contrário do que está escrito. Não adianta o discurso. O que forma é o que o ambiente entrega todo dia.

Tem outro efeito que eu vejo e que quase ninguém comenta. Quando colocaram a escola dentro do coração da comunidade, impediram aquela criança de ver o mundo lá fora. E a gente só sabe o que é verdade pelo que a gente vive. Se você cresceu dentro de um quarto, a única coisa que existe de verdade para você é aquele quarto. Você não sabe o que tem depois.

Ambiente fechado não forma só comportamento. Forma o limite do que a pessoa acha possível.

O número que muda a conversa

12 milhõesde habitantes no estado do Rio de Janeiro
4 a 5 milhõesretidos em áreas dominadas por facção
42.000é o efetivo policial, contra 55.000 criminosos soltos em 2021
2.000+comunidades com território de exceção

Quando eu falo em estratégia, eu falo olhando o meu problema, porque eu trabalho com segurança pública e eu estudo o meu problema.

O Rio de Janeiro tem 12 milhões de habitantes no estado, sendo 4 a 5 milhões retidos em áreas dominadas por facção. Toda área dominada por facção não é pacífica: ela sofre armistício, uma paz armada, que só existe enquanto você não atrapalha o que gera lucro. Em 2021 a gente tinha 55.000 criminosos soltos e 50.000 presos. O efetivo policial é 42.000. E são mais de duas mil comunidades com território de exceção, ou seja, território onde a gente só entra com operação policial.

Com esse cenário, o Rio caminha para virar México. Está muito avançado, quase chegando. Tem local onde hoje só o BOPE opera.

E o BOPE se adapta sempre que pode, mesmo com o que o estado atrapalha. A gente pediu metralhadora. A gente tinha dinheiro, tinha fornecedor, ganhou a licitação. A gente ia receber 21, se eu não me engano. O Exército autorizou nove, porque ele só tem 12 daquela metralhadora e a gente ia ter mais que eles. A gente vai comprar blindado e não pode, porque aquilo é blindagem de guerra e a gente só é autorizado a blindagem urbana.

Por isso eu digo: quem tem só uma solução não tem nenhuma. BOPE e CORE são uma solução. Não podem ser a única.

Religião

O pé que ainda está de pé. A mãe evangélica constrói família mesmo ali dentro, e o que ela ajusta em casa reaparece na cultura do moleque.

Família

Muita criança largada, sem quem responda pelo comportamento dela.

Cultura

O que se fala em volta: arma, droga, prostituição. É isso que vira normal.

O tripé do mapa de crença. Não é soma, é sustentação: um pé bem alinhado puxa os outros dois de volta, e é por isso que dá para atacar o ambiente por um lado só quando não dá para atacar pelos três.

A objeção que me fizeram, e a minha resposta

A crítica foi honesta e eu não discordo dela em tese. Estado menos inchado atrapalha menos a vida. Isso eu sei na pele. Quando eu paguei meu primeiro imposto de renda, eu que passava necessidade, e tive que dar mil reais para o estado, me deu um ódio que você não tem ideia. Me senti roubado. E ainda me sinto.

É um sócio que só vem no lucro. Você teve prejuízo? Problema é teu. Teve lucro? 30%. Minha mãe pegou auxílio emergencial sem me avisar, ela é minha dependente, e eu tomei uma multa. Fui à Receita Federal tentar explicar, não adiantou, tomei a multa.

Eu entendo quem quer o estado mínimo. Só que aquilo é plano ideal.

O foco dele era derrubar o estado. O meu foco era reduzir o problema do Rio. São perguntas diferentes, e a resposta certa depende da pergunta.

Se a gente não resolver a crise de segurança hoje, não vai existir a gente amanhã para brigar contra o estado.

E aí a minha sugestão foi essa: passa um comboio segunda-feira, seis da manhã, pega as crianças, dá bolsa só para quem coloca a criança no ônibus, leva para longe da área de comunidade e oferece lá:

  • proteção
  • segurança
  • educação
  • formação técnica
  • ambiente cultural saudável

Isso tira do tráfico uma das bases que ele precisa para proliferar, que é mão de obra.

Não é mais estado. Não é estado maior. É estratégia para resolver o problema.

O erro do estrategista, e ele quase nunca é falta de informação

Se a tua cultura, se a tua crença não te permite uma coisa, você não faz.

Repara na sequência que quase todo mundo faz errado:

  1. primeiro escolhe a ideologia;
  2. depois olha o problema;
  3. depois filtra as soluções pelo que a ideologia permite.

O certo é o contrário. Você tem que focar em qual problema quer resolver e achar o melhor caminho para resolver aquele problema. Se a sua ideologia não concorda com o melhor caminho, provavelmente a sua ideologia está errada, porque ideologia no geral é um copo vazio. Ela te dá um norte. Só o norte. Se você fica tentando se enquadrar em toda ela, você vai ser manipulado e vai ser um péssimo estrategista.

Eu vi isso de perto na época de cursinho. Um amigo meu, negro, era contra cotas por convicção. Ele achava um absurdo. E tinha uma vida muito difícil, sendo que a cota dava a ele a possibilidade de passar para uma condição melhor. Eu falei para ele: irmão, você não concorda com a cota, beleza, um dia você acaba com ela. Mas hoje isso aqui é selva. Você está sobrevivendo, a boia que tem é essa. Não é antiético, você não está roubando ninguém, você não está tomando de ninguém, e você fazendo ou não fazendo não muda o resultado do projeto.

Aquele engomadinho de "eu só faço isso" é coisa de quem tem direito de escolha. Quem está apertado tem que pegar a melhor estratégia, dentro do ético.

O limite disso, e ele é grande

Eu vou ser honesto com você: eu tenho solução para uma porrada de coisa, e nada disso vai para frente porque tudo depende de força política, e força política eu não tenho.

Eu já tentei impor essas ideias. Me botaram num grupo de debate de dez pessoas sobre segurança pública. Quando eu comecei a questionar, me disseram: irmão, o grupo é para debater ideia, não fala mais nada. Ninguém conseguia responder minhas perguntas. Deixei as perguntas lá e depois eu mesmo fui atrás de responder.

Eu não me basto em fazer guerra. Sempre pensei em como resolver a guerra. E deixo as ideias aqui sem precisar de crédito nenhum, porque eu só quero que essa guerra acabe.

O que você faz com isso

Se você lidera gente, o teste é este: olhe o que o seu ambiente entrega todo dia, não o que o seu discurso promete. Se as duas coisas divergem, o ambiente vence. Sempre.

Depois olhe as suas próprias regras internas, aquelas que você chama de princípio, e pergunte quantas delas estão te impedindo de enxergar o melhor caminho para o problema que você realmente precisa resolver. Convicção que sobrevive ao contato com o problema é princípio. Convicção que te faz escolher pior é ideologia.

E terceiro: se você só tem uma solução, você não tem nenhuma. Vale para operação policial e vale para plano de ano.

Se o problema da sua empresa é o ambiente, e não a intenção das pessoas

Um artigo mostra o mecanismo. Ele não muda o ambiente da sua equipe, porque isso não se lê, se instala.

Se você olha para o seu time e vê gente boa entregando abaixo do que consegue, ou vê a regra existir no papel e não existir na prática, o problema provavelmente não é a pessoa. É o que o ambiente dela entrega todo dia. Essa é exatamente a conversa que eu levo para dentro das empresas, com o que eu vi operando em terreno real.

Solicite uma proposta de palestra e me diga qual é o seu problema. Eu prefiro montar a conversa em cima dele a entregar palestra de prateleira.

Eu sou Cadar, eu sou caveira, e é só o começo.

As palavras, as cenas e os números deste texto são do Major Ronald Cadar, ditos por ele no vídeo indicado no início. Nada foi acrescentado.